sexta-feira, 13 de novembro de 2009
terça-feira, 10 de novembro de 2009
O rosto é obsceno
Nelson Rodrigues disse certa vez: "Só o rosto é obsceno. Do pescoço para baixo, podíamos andar nus". Nunca essa frase caiu tão bem quanto no caso da estudante Geisy Arruda, agredida por seus colegas da universidade paulista Uniban por usar um vestido curto, expulsa pelos diretores e, diante da grita universal contra a escola, readmitida por estes.
Para Nelson, a obscenidade não estaria no naco de perna da menina, mas no rosto de seus algozes. Ele se perguntaria se, ao passar a mão na cara, os diretores não sentiriam "a própria hediondez". E tão imoral quanto a expulsão é o "perdão".
A readmissão de Geisy não cancela a violência e as humilhações. Só se deu porque a Uniban -bombardeada pelo MEC, o MP, o Congresso, a Secretaria de Mulheres, a ABI, a OAB, a UNE, a imprensa e inúmeros pais e mães com filhos em idade universitária - viu futuras matrículas batendo asas aos milhares. Invejável prepotência a desses diretores, que não previram tal reação. No plano internacional, a Uniban e o Brasil são motivo de chacota. Que país é este, famoso por suas mulheres quase nuas nas praias, nos cartões postais e nos comerciais de TV, que não admite um vestido pouco mais curto que o de Julie Andrews em "A Noviça Rebelde"?
Roga-se endereçar a questão aos 700 agressores de Geisy. Mesmo que ela possa voltar à escola para completar o ano, os brutos continuam por lá, com seu moralismo rançoso, sua coragem em multidão e, quem sabe, prontos para uma nova "reação coletiva de defesa do ambiente escolar".
Belo ambiente. A Uniban, quarta maior universidade do Brasil em matrículas, está em 159º lugar entre 175 avaliadas. Ou seja, é a 16ª pior do país. Isso diz mais sobre o lamentável estado da educação entre nós do que cinco centímetros de perna de fora
Fonte: Folha de S. Paulo, 11.XI.09 - Por Ruy de Castro
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domingo, 8 de novembro de 2009
Fragmento
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segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Por um corpo que nos caiba
"Um corpo tornado passagem é, ele mesmo tempo e espaço dilatados. O presente é substituído pela presença. A duração e o instante coexistem. Cada gesto expresso por este corpo tem pouca importância “em si”. O que conta é o que se passa entre os gestos, o que liga um gesto a outro e, ainda, um corpo a outro."Denise Sant'Anna em Corpos de Passagem
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segunda-feira, 5 de outubro de 2009
Dicionário do Desejo | Liberdade
vinco - ruga sutil onde guardo meus brinquedos (dizem das meninas dos meus olhos)
dor - violência de água e sal que lava o que não fica (tempo de respiro)
cavas - onde a criança me abraça, frágil, amiga e livre (balanço que dilata)
olhos - morada da mulher (registro do mundo)
mar - verde onde quaro as dores e pouso o olhar (regador de alegrias em mim)
pipa - meninices ao sabor do vento (vontade de dança empinada no ar)
nos passos - pés tocando o vento (aprendizagem do que voa)
na areia - massageio meus sonhos (saudades do que vem)
no peito - poesia fazendo-se em asas vindas (caminho do que anda)
no desconhecido - a vida se fazendo num sopro (dolorido)
na palavra - silêncio sufocado (agudo que viola e faz nascer)
no lampejo - susto com o esboço nascente (fincado na vontade)
lugar - leito preciso no peito da gente (sentido)
amor - bicho barulhento que dói, move e é bonito
mulher - um jeito da vida acontecer (e-terno e forte, mesmo no miúdo)
acaso - tempo assintoso que insiste em bater
escolha - destino do que é vivo (ciranda)
vontade - dizem do começo do corpo
Não sei onde li ou se pari agora um silêncio assim: Liberdade é nome de pássaro difícil!
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domingo, 16 de agosto de 2009
Locked in a room
Corpo, bagagem, limpa, molhada, histórias começando trancadas na sala de nascer.
Locked within a room of memory
Locked within a room you stand
Locked up away with no light of day
Locked in a room you begin
To find your way out
You find your way in
Locked in a room with your memory far
Oren Lavie - The Oposite Side Of The Sea
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quarta-feira, 22 de julho de 2009
Tempo
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terça-feira, 30 de junho de 2009
Para me sentir
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quarta-feira, 27 de maio de 2009
Pelo caminho - Epifania Urbana
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sexta-feira, 22 de maio de 2009
Alquimia dos postos
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Cidades do meu corpo
Há qualquer coisa de movimento no sutil e uma delicadeza e tanto numa violência que não pára de mexer dentro da gente. Algo clamante de encontro, encorpando, passeando, ventre prenhe que gesta miríades de tempos, afã desiludido que ainda chupa a sobra do gargalo da noite; abraços ainda nem vindos; um galope sem cavalo destino ou destinatário; já não é um amor, uma falta, é como um trote desamparado que deseja não falecer, que se busca algo de morto é só pra sentir a contextura de querência, ódio e outros avessos do humano.
Frequentam-se esquinas onde servem cevada com ou sem poeira, onde dizem não saber, porque é charmoso uma liberdade que finge que vai, enquanto não se afirma, acreditando que o fundo já volta. Já não se faz contato em nome da preservação da própria espécie e do umbigo, pois autonomia já é quase verbo ditador nos manuais de ser. Há também das alegrias fáceis e baratas tingidas de buracos e brincos na carne do asfalto, cabelos irregulares, tatuagens na pele - feridas de guerra contemporânea trajada de radicalidade.
Ouço de dores, nomes sofisticados para porosidade ausente, escamas intumescidas e couraças ressecando a epiderme. Parece também haver no corpo uma pressa, medo secretado na paragem, travestido de coragem blindada, quarto que anestesia, varandas de portas amordaçadas e salas de não estar, casa que decoramos e não nos aventuramos a entrar, porque nela pode ter algo de umidade, de vidro estilhaçável, contado do elo macio e necessário que também se rompe, arrancando telhados.
Vendem-se felicidade em cápsulas e abortam-se amores, já que Fim é o destino de toda transitoriedade. Uma decisão corajosa e salvadora de antemão, palatável-preguiça-aceitável que evitam as dores e cicatrizes do depois. Poupar o corpo agora para não ter que distender o movimento da perna e derrepente, mesmo ele sendo maior do que o suposto, constatar que não é o suficiente, pois não há salvação para verves e carnes. Tem-se disfarçado interrupções sob o argumento de multiplicidade de oferta, fraqueza de corpos e imprevisibilidade do acaso. Esgarçado tramas inférteis noticiadas sob o nome de memória, tolerância, carma infinito, paciência e asas machucadas.
Conversamos de amenidades para indiferenciar o assombro do que pode ser complexo, que largo é aquilo que alegra, escandaliza, mostra o frágil, força nascente. Complicamos as falas e inventamos demasiados excedentes para não pronunciar o mais temido do amor: sua precisão de acontecer!
Uma perna firmando um passo, depois o outro, uns adiante e já não somos mais os mesmos - alguma rua já nos atravessou. Falamos da academia pra não dizer do desasssossego do que não sabemos; da cidade pra não desvelar a inabilidade de tecer um convívio. Afastamos-nos em silêncio para que uma das vozes não denuncie um pedaço de aposta não quer partir. A gente briga pra ver se convence que vai sentir menos falta, porque afinal se a briga ameniza a saudade, diminui o amor. Antecipamos a despedida pra inventar que não foi, fundando o eternamente inviável.
No meio de tudo que se parte, há algo de só que não caminha desacompanhada - abraços inteiros. O corpo agora acolhe o quase-tudo, amando as lacunas, os ardis, os vazios, dores e estrelas. Convido alguns poucos amigos, Cazuza, sinais, planos, vinho e (in)ventos. Os outonos são os mais tímidos por aqui, passo a fumar e ver, porque com os fins de tarde magenta também se abisma. Há uma pele que se torce fora, mas se refaz é dentro mesmo. Algo de quieto, violento e silencioso, que contabiliza as palavras pra não economizar no intenso, uma vontade espessa e gasoza que rasga onde não cabe, invenção de veias pra não intumescer o afeto largo.
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vinte e oito
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segunda-feira, 18 de maio de 2009
O ministério da poesia e da parceria adverte aos umbigos desavisados ou esquecidos: Solidão não é coisa de se fazer só, há de haver pelo menos mais um, nem que seja
ausente!
"a solidão é uma solução muito sozinha
a solidão não é uma
solução só minha
a solidão não é sozinha".Viviane Mosè, oferendado por Lucélia. Gracias queridas!
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sábado, 16 de maio de 2009
Da gravidez para o que vem
Inocência, é a criança, e esquecimento; um novo começo, um jogo, uma roda que gira por si mesma, um movimetno inicial, um sagrado dizer "sim"(...) para o jogo da criação é preciso dizer um sagrado "sim"; o espírito, agora, quer a sua vontade, aquele que está perdido para o mundo conquista o seu mundo.Assim Falou Zaratustra no livro para todos e para ninguém
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sexta-feira, 8 de maio de 2009
Faceta Taurina de Vênus:
[...]
A virtude do amor é sua capacidade potencial de ser construído, inventado e modificado.
O amor está em movimento eterno, em velocidade infinita.
O amor é um móbile.
Como fotografá-lo?
Como percebê-lo?
Como se deixar sê-lo?
E como impedir que a imagem sedentária e cansada do amor não nos
domine?
Minha resposta? O amor é o desconhecido.
Mesmo depois de uma vida inteira de amores,
O amor será sempre o desconhecido,
A força luminosa que ao mesmo tempo cega e nos dá uma nova visão.
A imagem que eu tenho do amor é a de um ser em mutação.
O amor quer ser interferido, quer ser violado,
Quer ser transformado a cada instante.
[...]
A vida do amor depende dessa interferência.
A morte do amor é quando, diante do seu labirinto,
Decidimos caminhar pela estrada reta.
Ele nos oferece seus oceanos de mares revoltos e profundos,
E nós preferimos o leito de um rio, com início, meio e fim.
Não, não podemos subestimar o amor e não podemos castrá-lo.
O amor grita seu silêncio e nos dá sua música.
Nós dançamos sua felicidade em delírio
Porque somos o alimento preferido do amor,
Se estivermos também a devorá-lo.
O amor, eu não conheço.
E é exatamente por isso que o desejo e me jogo do seu abismo,
Me aventurando ao seu encontro.
A vida só existe quando o amor a navega.
Morrer de amor é a substância de que a vida é feita.
Ou melhor, só se vive no amor.
E a língua do amor é a língua que eu falo e escuto.
Vênus - Paulinho Moska
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terça-feira, 5 de maio de 2009
Ética das víceras
Não separo meu pensamento da minha vida.Refaço em cada uma das vibrações de minha línguatodos os caminhos do meu pensamento em minha carne.
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quinta-feira, 23 de abril de 2009
Desatando o nós, colarinhos do peito:
Ajuda-me a desapertar os botões.
O meu corpo é o único vestuário que poderei talvez usar
Helph me whit the buttons, Siv Cedering
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quarta-feira, 22 de abril de 2009
Sonho procura um Terreiro
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sábado, 28 de março de 2009
Das nascentes vulnerabilidades
Ando com isso, suspeitando de uma distração nascente, que nos encontros há um tipo de fala e escuta secreta no sentido e ignorante das cavidades em que toca. Menos pela privacidade ou intimidade de certos temas em algumas esquinas, já que é há uma porção delas que não comportam incertezas, e mais pela força que certas palavras têm de mover o passo enquanto circula no corpo - errância a deriva fundando horizonte.
Um arrepio na nuca, alguma poça embargando o olhar, uma beleza quase sem sentido, ao menos daqueles óbvios e prévios. Sei lá porque, apesar de mim, a escuta guarda este tipo de palavra. Talvez registro de algum ainda por vir no (des)contínuo dos afetos. Ai, como me abriga esta maciez, preciso de uma casa assim!
Gosto da delicadeza destes momentos, quando simplesmente ouço e confio aquém do meu saber, onde sou arremessada além das minhas (in)certezas, improviso do profundo - conhecido popular daquilo que é pele. Silencio-me com estes segredos, como quem acompanha a luz esboçando a semente, folha, sol-raiz, delírios de uma paisagem. Certifico-me das ausentes garantias e me abraça uma voz longínqua dizendo:"tú tá acontecendo, morena!".
Sempre na curva do provisório, inadequações sinuosas e torpes. Recentemente, retornei ao mar da adolescência, açude salgado de algumas passagens - esteio-maré de tantas vertigens. Revisitei serras, lugares, praças, amores, sorvetes, procurava algo novo. Olhei quatro vezes a cicatriz antiga no joelho, recontei sua história outras cinco, uma sensação de repetição adensando o ar. Pele esfolada não é doença e sim versos de rupturas nas errânças do que é destino. Nostalgia? farelos de lembrança, cacos desalinhados, me cortando como farpa no mo(vi)mento-recolhida de alguns passos na história, só que desta vez o trote dos pedais na bicicleta era quem des-fazia os caminhos.
Um reencontro. Os olhos mel-agateados, aquela mão que nem era bonita, mas que já foi toda minha, fala pausada de boca cheia, dura, de lábios pra fora, de sentimento pra dentro, vírgula no pensamento, reticências no abraço... tem um regato de vida que se desvenda mesmo é sem palavras, nem ouvia o ritmo da conversa misturado ao poente, não lembro o conteúdo. Algumas despedidas dispensam formas. Um sorriso roto, pendurado, olhares fugidios, uma morenice morna, menina, liberdade adestrada em surrados pacotes de promessas, "ócio criativo" embalsamado a beira mar. Na fuligem das lembranças um açoite, o que era saudade ameaçava tornar-se uma contabilidade afetiva, mas quem dava o troco era a lua das marés.
Há na vontade um limiar nem tão estreito assim, uma desacomodação inevitável, uma tensão vital e necessária. Quero de um vôo toda sorte de uma vida inteira, do intervalo do beijo a saliva inflamada dos dentes. Nesta hora tem uma febre, uma ira quase umbelical, primitiva senão fosse tão familiar. Tem no tempo gravidezes infindáveis que me varam, luaridades sem pai que desprezam a adoção do sossego... Quando a boca resseca, o olhar desvia e o ombro pesa, o corpo vira placenta, preciso ir-me senão me sobram palavras e me falta o ar, é hora de bolsa rompida, sem pará-medicos, ou fórceps. Regando este árido tem um torpor, uma tristeza que mal-diz por dentro, que me leva pedalando pra fora, um nascimento-dignidade de poder partir e uma secura, quase raiva que não consegue aceitar o amor co-habitar a mesma vida, junto ao despedir-me.
Face quente, suor e protetor solar se fazendo e secando na pele ardida. Vento denso no rosto - despedida arrebentando a paragem. O choro não vinha, nem que fosse por ódio. Como pode tanto mar diante das minhas entranhas ressequidas? Um nó na garganta - um aparto me grita: merda, nunca aprendi a me despedir!
Da lembrança de alguma beleza do passado, um arrebatamento, nasce a primeira gota, a segunda de um embevecimento largo ao cumprir o verso-lamento: sempre amando mais do que posso! Queria ainda uma terceira, quase uma sandice incrédula, como judas negando cristo - no terceiro não eu enterraria então os momentos vividos. Mas ela não veio, é que eu também nunca aprendi a abortar um amor, eles sempre morrem de alegrias vingadas, de tempo vencido, passado, de morte morrida mesmo.
Recontei-me a história das lágrimas. Lembrei dos meus desintendimentos acerca dos funerais. Um alento: eu não chorei no enterro do pai. Nem por orgulho ou força, é que nunca consegui irrigar chãos inférteis por tristeza. Tem forças de existências que só acontecem na aridez do solo partido. Fiquei a lembrar de rochas de sal, dos cactos e das lhamas no deserto. Quando um amor deixa de me irrigar, é como enterrar os ainda mais antigos e disso nasce uma resistência, pétalas e farpas - trincheira de desejo além. O si vomita as instruções de mundo, expurga vozes razoáveis, habita desacostumamentos.
Um rito funebre se desdobrava para além das minhas águas, só que desta vez no sal do mar. Aliás, como é bonito saber que ele acontece sem mim. Quando um enterro deste calibre me atravessa não é alguém que morre, mas um tempo de amor, um jeito de amar. Uma destruição que libera, o ar chegando nos poros, um sentimento de morte anunciando que o corpo já nem é mais o mesmo. Derrames de excessos, desentranho tatuagens, qualquer resquício de vida desmaiada, viro pequena, pedaços de afetos aos muitos.
Sentia uma corda, já não mais no pescoço e sim nos ares, fiando-se em meus pés, daquelas dos caminhos do céu. Iluminação? não! o caminho de traz não me cabe, os das alturas desconheço, e o horizonte, terra pra não despencar no abismo me acolhe. E as asas que ainda não me nasceram? Fragilidade? não, é vida nova como desejada e ansiada nos errantes pedais. Agora sigo sendo lâmina, recitando algo de raiz, de humano, de fêmea parindo na noite.
Na ladeira do peito tinha este outro caminhar, um molejo cansado, uma bicicleta e uma larga vereda de vida inteira a seguir... pedalava queixosa com as ausentes asas. Sempre imaginei que a liberdade era coisa alada - risco captura de se encerrar numa imagem. Desde antigamente na orla vejo-me pequena, é tanto imenso... o mar é tão bonito que vai, o ar é coisa tão livre que voa... Me recolhi na miudeza do respiro possível, atinei que não voava, mas pedalava, experimentava então as derivas nos caminhos de um chão-despedido. Não tenho asas, e sim pernas de percurso, de fazer indo nos longes. Às vezes um jeito de acreditar se parte na'gente, parece que é morte para sempre, mas se chamada de nova, a vida atende, não são cacos de um vitral e sim estilhaços na carne de um corpo vivo. Tristeza quando bate, também espirra, estranha.
Existir às vezes parece um monte de tropeços, cuidados prosseguidos... vida nova e contínua é coisa difícil de se fazer pedalando, experimentando na largueza das escolhas disso que é caminho. Sempre temi o encantamento do que parece nascente na ruína, porque aí tem um velho-atual derrame, jeito de estar que nem é razoável sem Uma história, nela interrogo os espaços e uma fissura me cede a derme - perplexidade abismal: fruto de excesso do que já não me cabe mais. Não se tratava de reincidência e sim de um corte no contínuo de um movente fluir. Lembrei daquele segredo do início do texto. Tem coisas que são tão delgadas que só nascem no vão de uma vulnerabilidade. Quando me pego em dor de poros esgarçados, é como num sonho de asas, dói, convulsiono nas víceras, dilato e quando percebo me encanto sendo menos. Tem um passo que parece que é rasgo na carne, posso chamá-lo de catástrofe, des-eixo, colapso, sofrer, mas se cuido das dores e o chamo de vivente, ele segue no horizonte.
Nos vocábulos e dispostos em geral, despedida diz da saudade de pessoa, coisa perdida ou desaparecida, "de um bem que se gozou"; separar-se, lançar-se de si, soltar, partir... Aqui, dizía-se de uma dobra-distância, espaço recém existente, infíndável (como crianças em anéis de saturno); Agora, abraço difícil de desazer-se, embaraçoso e delicado vínculo de uma delicadeza, improvável ir-se. É curioso, há anos ensaiava Um adeus me emprenhava desta carta, e os braços (asas?), a nudez da folha branca, de um processo ainda nascente me convidava ao assombro; des-idade, antecipação por me adiantar sempre, tantos anos a frente de cada hora. Desperdir-me é um estado sempre trêmulo, presente tripidante, silêncio grosso, intratável, que viola, antecedendo as des-horas vulneráveis de nascer. É uma espera longa, essa de grafar inteira.
nenhum outro agosto, é fevereiro de 2009 mesmo.
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terça-feira, 24 de março de 2009
Desassossegando
“A única maneira de teres sensações novas é
construíres-te uma alma nova. Baldado esforço
o teu se queres sentir outras coisas sem
sentires de outra maneira e sentires de outra
maneira sem mudares de alma. Porque as
coisas são como nós as sentimos – há quanto
tempo sabes tu isto sem o saberes? – e o único
modo de haver coisas novas, de sentir coisas
novas é haver novidade no senti-las.
Muda de alma. Como? Descobre-o tu. (...)”
(Fernando Pessoa - Livro do Desassossego)
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quinta-feira, 19 de março de 2009
Rumores
"Tem gente que quebra espelhos e aspira o azar, quem sabe um outro nome para acaso. Dispõe-se a explorar o estranho em si, conectar-se com o intempestivo, o sem nome que lhe dá boas-vindas. E força uma fenda em sua intimidade. Rompe com a cadeia de condicionamentos a que chamava viver.
Desalojada das formas em que se reconhecia, um discreto lamento começa a assediá-la, mas finge não escutá-lo. Decide apegar-se com fúria à urgência dessa nova vida, intensivamente frágil. Não lhe passa pela cabeça rotulá-la. Prefere carregar consigo esse inominável estado inédito. Prefere de agora em diante deixar a porta aberta."
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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
Escândalo de alegria
Pensei recentemente, num tipo de alegria casal-de-flamingos: um escândalo sozinho, plácido, prosseguido e acompanhado, que derruba n'agua algum contorno de beleza, anglos e engulhos de silêncio.
Qualquer semelhança é só vontade de vida pulsando!
Los Flamingos in Deserto do Atacama - jul/06
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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
Ecos Urbanos| des-série: dicionário do desejo
Por Jorge Drexler (Eco):
Esto que estás oyendo ya no soy yo,
es el eco, del eco, del eco de un sentimiento;
su luz fugaz alumbrando desde otro tiempo,
una hoja lejana que lleva y que trae el viento.
Yo, sin embargo,
siento que estás aquí,
desafiando las leyes del tiempo y de la distancia.
Sutil, quizás,
tan real como una fragancia:
un brevísimo lapso de estado de gracia.
Eco, eco
ocupando de a poco el espacio de mi abrazo hueco....
Esto que canto ahora,
continuará derivando latente en el éter, eternamente....
inerte, así,
a la espera de aquel oyente que despierte a su eco de siglos de bella durmiente...
Eco, eco
ocupando de a poco el espacio de mi abrazo hueco....
Esto que estás oyendo ya no soy yo...
Cenas distraídas do meu enamoramento por ti São Paulo
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sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
Por toda sorte de uma vida inteira
Do descabimento em tempos recentes:
Toda sorte de uma vida inteira
"é só o que me interessa"!*
Lenini em Labiata (disponível também aqui)
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quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
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sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
Para não esquecer de lembrar
Talvez o mais bonito dos encontros esteja no que não foi dito, nem por histeria ou desejo de falta, mas agora me parece que qualquer palavra é insuficiente pra contar o que acontece. É que nesta lacuna há um tempo em que menos do que explicar, é preciso viver - tessitura de um sentido; lugar onde um bocado de impossível também nos desenha, parindo filhos no mesmo corpo, nos fazendo estrangeiros em nossos próprios caminhos. As vezes sinto que só um tanto de liberdade, inclusive para não dizer, ou falar não, faz o que é, ou o que vai se fazendo.Acho possível qualquer encontro entre diferentes criaturas, contudo difícil e provável no tempo de tantas coisas (metrô, inclui, trabalho, deleta, assiste, retira, agendas, guerras, semáforos...). Um monte de convites, salpicados de fugas, mãos e insustentabilidade de estar junto. Há também aqueles momentos em que finalmente dizemos "SIM!": uma autorização para que o outro se mantenha outro em seu abismo e ainda deste lugar finalmente nos toque, nos entre, logo saindo, quando sem maiores pretenções deliberamos que simplismente seja(mos) horizonte. Talvez isso, na presença ou ausência de palavras, mais ou menos toscas seja um comum desejo, entre nós, demasiadas criaturas.No corpo tem uma tolerância, resistência além: ternura vital ao convívio de mamíferos e uma raiva necessária, que eu quero toda porque é nossa também; um lugar de lembrança, de atual que é hoje, que pouco importa a hora ou onde. Tem um espaço que é cálido, tácito, ontem, amanhã, entre, agora e urgente, quando num encontro finalmente se refaz espaço-tempo, importância de viver, e é nesta fronteira que finalmente reaprendendo com quantos dentes se faz um sorriso!!!Neste sentir há sempre uma largueza primeira, nem sempre altiva ou miserável, onde humilho meu orgulho, algo que deixa de ser segredo, porque nem é tão privado assim, uma coisa que afirmo somente na solidão diante da tela, dos olhos que que não me vêem: a miudeza de tais palavras não é indolor só porque lava meu rosto e tece nossos sorrisos, é possível que só consiga proferí-las por reconhecer sua efemeridade e desejar que permaneçam, elas, vocês, recordadas, grifadas, aqui, todo mundo dentro de mim.Existe um silêncio quase anscestral que nem sempre é abandono, toda vez que se hospeda na gente, é como se fosse a primeira, é como um hóspede nos conhecidos sentimentos, as vezes quando chamado de solidão ele também atende, desde que haja coragem e amizade e quando convidado, simplismente vem nos derivar. Ele se assusta com o frenesis dos falatórios, mas no fundo é só a gente convulsionando, de vida estranha pulsando.De tempos em tempos sinto essa liberdade sem data ou nome me arrastando, talvez porque só um acaso necessário possa nos tomar os destinos (ou desatinos?). Não canso de me surpreender com uma habilidade de lembrar e perceber onde o cabelo faz a curva, sensibilidade onde nos dobramos sobre a própria existência. Arrisco dizer que o mais sagrado disso, é que nunca conseguimos fazê-lo exclusivamente só. Então, ausente de explicações ou garantias só sei, baixo, sem palavras, consciência ou nomes, vezes mais malemolente, outras mais ávida, circense ou milongueira, que é tempo de dizer SIM!!! a todo eterno-finito que pode caber nestas três letras.
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terça-feira, 13 de janeiro de 2009
Um assovio seco, fino, dentro,parecia dor.Aridez?é verãonão há mais gotas pra molhar!
Foi só a mira-lembrançada larga e delicada ruína,diferença?avesso da memória,beleza daquilo que nasce pela primeira vez.
Noite quenteExistir é arte de muita coisa,fico exausta, rota, enxuta.É que as vezessou estrangeira nas minhas recordações.de passos tortos,poros agudos,esquinas secas.É um calor grosso,doce,febre de quem dobra o impossível,esperanças ressequidas.E um verso insiste:“essa água quieta desejando a sede”.Nem é força ou ausênciaÉ só uma brisa,que não é tempo,silêncio é um vento sozinho dentro da gente!
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quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
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quinta-feira, 25 de dezembro de 2008
é tudo que nasce! | des-série: dicionário do desejo
Natal: no dicionário, dia, na geografia, lugar onde nasceu Cristo -acompanhada de credos: estampa religiosa - da janela: pessoas amassadas entre ruas e sacolas, arrastadas por frenesis e pacotes, se internando nos congestionamentos, consumindo idades, procurando o significado do festejo que compraram junto ao manual em Esperanto - nas famílias: angústias boiando nas taças - entre os casais: dia quando o que foi tecido no quarto é arremessado na ceia - nas árvores: luzes e presentes ocupando vazios - no aceite cego: densidade primeira para a tal "noite feliz" - na mesa: a uva lavada na promessa do que nunca de cumpre- no presente momento: retirada da farda, desobrigação de festejos bíblicos - no desejo: nascente de vida convicta - Aqui: bom vinho e vida pulsante, com tudo que pode caber nisso - Disse Estamira: natal é tudo que nasce!
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quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
Soluço de Vida
aquela da insignificante importância
entre o suor vivo - incômodo do calor
e o assombro do trovão que anuncia a tempestade,
é água mole que leva o que não fica,
o menor onde reside um miúdo-imenso contentamento
ser o que se é, habitando a minúcia
minúscula fenda entre o que foi e o que será
abismo, lugar, aquilo, tempo, algo ou alguém
largo e vertiginoso que desconheço em mim.
Con-fiança é o derrame de uma linha
fiar é trama que me arrasta ao esquisito
fé no outro, em mim, na vida:
coisa suave, de só sentir
que inclusive exige mais delicadeza
e menos munição.
Não se trata de combater e sim concebê-la.
Uma crença ignorante em palavras,
sabor de quem pressente liberdade,
arrebatadora,
menos por aquilo que a mira alcança
e mais pela distância lançada entre os corpos.
No pé de trás abandono os cadáveres,
o outro é vítima do frescor de só estar na grama.
Caminhar fiando o percurso
é deriva de acontecer fazendo.
Rio nos corpos, pirilampos
frio no pé, calor na língua
e abraços caninos de relva na noite,
anunciando uma natureza
nem planejada ou prevista,
só um desejo do inevitável aconteceu:
um ritmo diferente de ontem e provisório para amanhã,
lugarejo onde contínuas águas me passam.
Toco com os poros,
passos despidos em lugares mansos e urgentes,
Sim!
a geografia das forças que me rebelam,
Nem é larga, em letras garrafais,
mas é tão legítima de um percurso,
Do desejo de aguar ao delírio de fluir.
nuances daquelas ondas que já nem são mais as mesmas.
Um ar me escapa do peito,
susto?
um soluço
de quem cometeu um crime,
frio?
Não...
é beleza escandalosa
ritmo pulsante de voz denunciando:
Socorro! a vida me passa!!!
Desvairadas forças me invadem
me arrancam os órgãos da dor.
Sobre isso não há muito que fazer
senão nadar.
Uma inclinação pra chuva me acompanha:
cair fundo e deslizar no horizonte.
Aviso aos amigos
que não se trata de algo grave ou agudo
é apenas uma vida cronicamente delicada,
inquieta e teimosa
que insiste em alegrar-se;
é só aquilo que me nasce de novo,
na inventividade de sentir,
sempre como uma primeira vez.
Lembram que lhes contei de uma linha, um fio?
então,
ele é um regato, fino, delgado e honesto,
menos por limpeza de caráter
e mais porque a vida é corda que não autoriza o abandono.
Dis-traída sim, jamais renunciada.
Gracias a la vida?
Sim!!!
Agradeço o regalo,
entregue, pequena
em silêncio,
sal,
gargalhadas e águas misturadas.
Agradecimento,
não mais por gentileza e/ou esperança,
é só afirmação da insuficiência de palavras contando
que sem ela,
já nem sei mais viver.
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Daniela Patricia dos Santos
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No bolso fundo da "japona"
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sábado, 22 de novembro de 2008
O que chama saudade (?)
* http://br.youtube.com/watch?v=doc1eqstMQQ
(1) Amparo oferendado por Barthes
(2) Denúncia realizada por Ana Cristina César
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terça-feira, 18 de novembro de 2008
Pensamento que derrama
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sábado, 15 de novembro de 2008
Sapato-parceria
A Foto da postagem anterior brincava no MSN, dizendo: "sapatos procuram poesia -
pode ser uma letra, meia palavra, afetos perdidos, um partido verso - quem se
habilita?". Poesia ela não conseguiu, mas o chamado resultou em parceria de
outros retratos de sapatos perdidos.
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quarta-feira, 15 de outubro de 2008
Presente de desaniversário
Créditos e agradecimentos:
- à criança que em Montevideo me vendeu seus sapatos escolares, fonte de inspiração e carinho
- à Dani Pinheiro, querida em desagrego pela foto-poesia, presente da e na vida
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Daniela Patricia dos Santos
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Medo: polifonias fronteriças
[Medo de aproximar e distanciar, de sair tão apressada para os encontros e não me levar; de ser tragada como se fosse inconsistente, de dar as mãos como se fosse amiga, de sair como se fosse livre; medo de me roubar, me barganhando a ausência do outro, por pura carência; das variações que sinto quando me percebo outra, várias mulheres fruto do encontro das vozes que tecem a história do feminino, um pouco de nós por dia; medo de anunciar pelo outro; de denunciar minhas fraudes; de delatar minhas farças; de me atropelar na gramática; de me ultrapassar numa pseudo maturidade e ter de me esperar chegar por anos; de que as respostas sejam mais rápidas que o caminho; da doçura dos encontros; de ser só; da potência tateada de leve num ENTRE; de só ser e esquecer de só estar; de me recolher como se fosse possível; de me esparramar como se fosse grossa, de sair e perceber que um desejo não se traí; de me encantar com os possíveis dos escombros; medo de desejar permanecer; medo de perecer ou de me equivocar na medida de mim; o de ficar somente pairando, ou de entrar e chafurdar no atoleiro, o de me misturar, o de limitar antes da borda; medo de tocar e quebrar e talvez o maior de todos: o de não sentir medo do medo, que se abreviou na coragem de poder anunciar tudo isso.]
Coragem não é ausência de temor, é autorizar que ambos habitem a mesma casa. Linha bamba do naufrágio das esperanças, lugar onde posso falir, onde deito minhas tristezas, teço alegrias, descanso os cabelos, miragino realidades e invento encontros. O medo é também habitado por (in) verdades que engravidam os tempos, escrevê-lo é acolher o que também me move.
Finalizo esta coragem com o sorriso-asa, daquele que acolhe o medo como pedaço primeiro de uma ousadia:
"Nós, humanos, somos estranhas criaturas: gostamos de ter medo. Escalamos montanhas, pendurados nos abismos; lançamo-nos no espaço vazio, confiados em frágeis asas; mergulhamos nas funduras do mar, cercados de perigos. Assim também as viagens - para serem mais do que deslocamentos banais no espaço têm de ser saltos no desconhecido, com todos os seus calafrios. A menina não podia voar porque não tinha asas no corpo. E não tinha asas na alma. As asas da alma se chamam coragem. Coragem não é a ausência do medo. É lançar-se, a despeito do medo (...) Não notou que algo estranho estava acontecendo: começaram a crescer asas nas suas costas. Não asas de pássaro. Ninguém é igual. Delicadas asas de borboletas (...)"*
[...] trecho de polifonias fronteiriças compartido com o coletivo Clínica: uma obra aberta
* Ousadias passarinheiras por Rubem Alves
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segunda-feira, 13 de outubro de 2008
Femineras
As calcinhas velhas já me livraram de um monte de robada.
Fica tranquila nêga, uma ofença desse calibri, sai na urina.
Cada um no seu quadrado, mas com alguma coisa em comum.
Da ressaca moral: Bendito o fruto do desagrego!
Não trupica que a fila anda!
Em negócios de amor, nada de sócios!
Tem amores que é assim, não dura de uma depilação a próxima.
Do abandono da corda: onde tem promessa, há mentira!
Desagregada sim, desgrenhada jamais!
Nas derivas marítimas (ou etílicas?): soltas na vala!Das precariedades transbordantes: estávamos caindo pelas tabelas! perdendo as estribeiras!- Você vende Jóias?
- Não! faço o que posso, inclusive amizade na Rua Augusta.
- O extremo da generosidade?
- Não! é graça de viver mesmo.
Do presente de aniversário para ele: Um par de culhões!É o que temos para hoje!
Feminice retratada por Sará Sauhova.
Vozes irreverentes ouvidas e/ou proferidas no caminho. Qualquer semelhança é mera (co) incidência.
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domingo, 5 de outubro de 2008
Longes do Sul: Mar de Horizontes
Caminho de Montevideo (fronteira com Rio Grande do Sul) - Julho de 2008 - *


Laranjal - julho de 2008 - Por Dani Pinheiro
Tudo é movimento
tudo gira
para fora.
O que parece
demora
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quinta-feira, 25 de setembro de 2008
sexta-feira, 19 de setembro de 2008
Pra acabar com o miserè
O vazio é um meio de transportePra quem tem coração cheioCheio de vazios que transbordamSeus sentidos pelo meioMeio que circunda o infinitoTão bonito de tão feioFeio que ensina e que terminaComeçando outro passeioE lá do outro lado do céuAlguém derrama num papelNovos poemas de amorAmor é o nome que se dáQuando se percebe o olhar alheioAlheio a tudo que não forAquilo que está dentro do teu seioPorque seio é o alimentoE ao mesmo tempo a fonte para o desbloqueioE desbloqueio é quando aquele tal vazioSe transforma em amor que veioLá do outro lado do céuAlguém derrama num papelNovos poemas de amorDo outro lado do céuAlguém derrama num papelNovos poemas de amorO vazio é um meio de transportePra quem tem coração cheio
Chico, meio cheio ou vazio não orna com os últimos tempos, de alegria ou miséria que transborde os poros... ops! os copos!
Cheio de Vazio - Paulinho Moska
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segunda-feira, 15 de setembro de 2008
Do cinza dos dias ao pertencimento das cores
Pertencimento imagético criado por Saudek
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segunda-feira, 8 de setembro de 2008
sábado, 6 de setembro de 2008
Do lembrete na algibeira
A felicidade não está no que acontece mas no que acontece em nós desse acontecer. A felicidade tem que ver com o que nos falta ou não na vida que nos calhou. Devo dizer que não me falta nada, quase nada.
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segunda-feira, 1 de setembro de 2008
Desamar ao avesso
Não te amo mais.
Estarei mentindo se disser que
Ainda te quero como sempre quis.
Tenho certeza de que
Nada foi em vão.
Sei dentro de mim que
Você não significa nada.
Não poderia dizer nunca que
Alimento um grande amor.
Sinto cada vez mais que
Já te esqueci!
E jamais usarei a frase
EU TE AMO!
Sinto, mas tenho que dizer a verdade:
É tarde demais...
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Daniela Patricia dos Santos
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Versos para não entender
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domingo, 31 de agosto de 2008
Filosofia para cotonetes
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Daniela Patricia dos Santos
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sábado, 30 de agosto de 2008
Des-Aforismos
O amor vive suspenso por um fio. E a solidão repete o mesmo.
Sueño con versos que no tienem forma, solo venas.
Toda uma vida a base de olhares.
Varias palabras reunidas bajo un mismo silencio.
Fez do coração um mapa, para aprender sobre as distâncias.
Saltaba por encima de los miedos, sin atravesar-los.
O desmedido peso das asas, quando a gente se torna o próprio anjo da guarda.Qualquer semelhança com movimentos reais é mera diferença.
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quarta-feira, 27 de agosto de 2008
Solidão: Uma prece de Vida
Aproveite e cure a última ferida
E nunca mais solidão
Solidão
Acordou de madrugada
Com o coração
Já pensando em batucada
Você pulsando
E eu batendo no meu tamborim
Qualquer refrão perdido
Que diz que a dor sempre tem fim
Porque
Essa é a última solidão da sua vida
Aproveite e cure a última ferida
E nunca mais solidão
Solidão aqui não é alternativa ao romantismo naufragado, mas a única escolha da qual não escapamos ilesos no íntimo dos encontros, nos descompassos dos ritmos, nas agendas apertadas, das pessoas que escorrem no metrô, no aperto pseudo-desapercebido do ônibus, dos corpos que se esbarram sem se encontrar, dos que encontram sem se tocar, dos que doem na falta de toque, dos que aprofundam e temem a potência, dos que tocam e não aguentam, dos que se sentem ligeiros escapando, daqueles já aniquilados - saudosos do que move, dos que se deslocam e não se movimentam no automatismo urbano, dos que acham que vertigem é crise e que crise tem que curar.
Dia destes ouvi numa filosofia que o corpo em crise, é aquele que toca o fundo, imaginem só que podemos relar no profundo sem o toque do telefone a pertubar, o do despertador na hora de acordar, das regras do bom senso, dos que melam as mãos e fingem indiferença. Até parece que podemos cair sem chamar de loucura, doer de existir no combate hora-a-hora sem ser chamado de covarde, suicída por habitar o momento. Não! o corpo contemporâneo é miúdo, se enfraquece na urgência da cura pro desassossego, reclama das forças do (des) encontro, rogando por não encontra-las, faz da solidão ditadura-resposta ao insustentável do vibrar no contato, tranforma suavidade em fraqueza; este mesmo corpo é o que coloca o homem sempre aquém das tuas forças, num combate com um corpo indigno do que sente, pequeno diante do que é vivo e largo diante da morte, que nestas condições já o acomete por doença de nome sobrevida.
Já o fiz em demasia, não quero prestar concursos, acelerar o passo, rodar nas horas, percorrer oeste - sul em uma linha, planejar uma vida inteira diante de tantas horas - pre-ocupação não me cabe; recuso sentir que posso, pelo que sei, desconheço meu tamanho; eu não risco os calendários, menos por respeito as oficialidades e mais por indiferença; não quero que a lista de tarefas diárias me trague na fulgacidade dos encontros, que o medo da partida antecipe a despedida, que o futuro improvável me roube do agora; não sei desgraçar o que me faz nascer o riso, mesmo que na dianteira se inaugure numa dor; não posso fingir indiferença ou fraqueza de carne quando o outro (pode ser sujeito indefinido) me faz vibrar, menos ainda abortar um amor, porque é Uma Vida; nem por demagogia ou passionalidade, mas é que só na diferença e na variação dos timbres que me sinto viva.
Minha casa é miuda, ou como preferem os mais generosos, um loft, meu corpo é delgado e meus desejos, teoricamente maiores do que poderiam caber nesta vida. Sabe o que é? é caso de vida compacta, jamais contábil, quero economizar na esterelidade da verborragia, que recalca desejos pra engordar os possíveis dos encontros no meu corpo. Vida é coisa de cada um fazer do jeito que pode, no passo que dá, diminuindo distâncias e abolindo as faltas. Aí sim está uma vida que me cabe. Solitário é o tom que cada um se destina para desenhar a propria vida, ainda que na ilusão de controle, no meu caso, quero uma vida que caiba mais de uma pessoa, múltiplos caminhos.
Vamos nos despir das categorias e desinvestir a vida do que a estrangula, não se trata de buscar o cais, menos do que lugar, um norte, sustentar o corpo, barco-tempo em mares contemporâneos, de derivas angustiantes, de caos, onde o que é sólido pode se desmanchar no ar e não ser efêmero, não se finda sem olhos dizendo ao telefone: hoje não posso. Ando cansada da exaustão juvenil, exaurida das idades que me percorrem. Não se trata de fulgacidade, de uma imortalidade dos afetos, mas que eles possam ser livres e (e)ternos enquanto durem, criando movimentos, repetindo até se diferenciar - invisibilidades sustentado o caos que o produz, vínculos e lastros, que me contem dos possíveis, que reafirme que não sou homogenea na verdade dos olhos, desejos galopando, não quero discursos anitgos maquiados de rouge moderno, amores palatáveis na embalagem descartável dos excessos, doçura que se esvai na velocidade dos dias, que se aperta na correria dos tempos; não sou fácil, nem original, porque mais do que paz quero vida pulsante - embreagada de desejo. Eu sou eu e mais tudo que me passa: vidas recriando a existência.
Escrevo estes delírios a partir do que meu corpo sente, pois é o único lugar do qual posso falar sem moralizar ou imaginar, é só experimentação. Dias destes também ouvi um mago de des-horas pedindo disponibilidade de corpos para os carinhos da vida. Deixemos então que as intensidades nos passem, que a expressão não tenha certidão de propriedade (meu, teu, nosso). Que venham as vertigens, os abraços, a poeira da miséria, aquilo que parte, os sustos de alegria, os destroços das ruínas - matéria prima de outros por vires, e até a morte no seu dia. Descobri agora que o afã de viver me liberta do medo de morrer, pois não sou sozinha. Encerro esta escrita oferendando Sindia, companheira na avidez de existir: *"E a gente nem se deixa inaugurar para saber se há espaço para tanto advérbio(...) nunca, jamais"; abuso ainda ao dizer que quero um corpo que sustente cada força e encontro que inventar, porque eu também sou ele e se algo o atravessa, jamais é por medo, fraqueza, ou falta de espaço. Ninguém conta minhas regras, menos do que liberdade, é atrevimento e desobediência do acaso que as esboçam, inaugurando desejos. É uma suavidade, como a vida gosta, peito aberto para as inevitáveis mutações de planos, compartir o privado, diluir a autoria, o outro não é inimigo antagônico dos meus projetos, é Jonnatas, Izabel, Patricia's, Cida, Rafael, Dora, Scheila, Marareth, Marilza, Daniela, mais os anônimos e ausentes que me encontram por nome: Parceria vida afora - apelido: Confiança na Existência e sobrenome: Multidão em Mim. Que os encontros possam redesenhar as mentiras prometidas nas palavras me fazendo outra a cada instante de solidão. Saravá!!!
Música de Paulinho Moska - É a Última Solidão da Sua Vida
*Tessituras de diálogos, criado, proferido e ofertado por Sindia Santos (para acessar o blog click aqui)
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Daniela Patricia dos Santos
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sábado, 23 de agosto de 2008
Nas franjas de uma alegria - do delírio ao abraço
"Não nos provoca riso o amor quando chega ao mais profundo de sua viagem, ao
mais alto de seu vôo: no mais profundo, no mais alto, nos arranca gemidos e suspiros, vozes de dor, embora seja dor jubilosa, e pensando bem não há nada de estranho nisso, porque nascer é uma alegria que dói. Pequena morte, chamam na França a culminação do abraço, que ao quebrar-nos faz por juntar-nos, e perdendo-nos faz por nos encontrar e acabando conosco nos principia. Pequena morte, dizem; mas grande, muito grande haverá de ser, se ao nos matar nos nasce."
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segunda-feira, 11 de agosto de 2008
Recortes sinceros
Quatro minutos da atenção para um tanto da beleza .Recortes sinceros dos encontros (ou encantos?) que faz dos
grandes centros urbanos lugares possíveis de habitar. Menos pela letra e mais
pelo molejo e cenas.O romantismo tem de dividir a cena com o que lhe escapa,
transbordo da solidão buscando aconchego, afeto e sustentação. Desejo de
caminhar pela cidade e descobrir os possíveis do inviável. São Paulo inda me é
possível!!!
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Daniela Patricia dos Santos
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15:04
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