quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Lugar


Era então o mundo
dentro das pequenas bolas verdes

Eram as idades
todas despecando
uma depois da outra
memórias bagunçando os tempos
magenta e planos
e depois horizontes e amarelo
pedaços de vida vindo e indo outra vez.

Desavisada
destranquei a porta daquele pesar
(o mais difícil de partir, porque era de alta estima).
Depois disso o olhar se afogou
e não me recordo direito
a voz era mais doce
e a carne macia de novo.

Havia uma marca que não era buraco
tinha lastro
mas não era reio
era vazio
mas todo pleno.

A última volta da chave denunciava
olho
e corpo não é mais o mesmo!

Eu vi mesmo esse retrato...
só não sei se foi dentro ou fora da pele
.


É isso que faz um lugar: o chegar e o partir
.*


Retrato do meu último olhar.
*Mia Couto em Antes de Nascer o Mundo

sábado, 16 de janeiro de 2010

pérola

Dobras e delicadezas: quando o capricho toma vida própria


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Lisa Hannigan - Lille


domingo, 10 de janeiro de 2010

Última vista - pelo olhar dela





Ferida Aberta no/pelo olhar da que sente com os olhos.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Trovoa

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Trovoa - Maurício Pereira

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

De algumas paixões

"Quando a aparecida lhe tocou no braço e ela a fitou, um frio o golpeou: a moça não tinha olhos. No lugar das órbitas. o que se vislumbrava eram dois vazios, dois poços sem paredes nem fundo.
- O que aconteceu com com seus olhos?
- O que têm os meus olhos?
- Bom, não os vejo.
Ela sorriu, espantada com o embaraço dele. Que ele devia estar nervoso, incapaz de acertar as visões.
- Os olhos de quem se ama nunca se vêem.
- Entendo - Afirmou Ntunzi, recuando às mil cautelas.
- Tem medo de mim, Ntunzito?

Mais um passo atrás e Ntunzi se desamparou num abismo e ainda hoje ele está tombando, tombando, tombando. Para o meu irmão o ensinamento era claro. A cegueira é o destino de quem se deixa tomar de assalto pela paixão: deixamos de ver quem amamos. Em vez disso, o apaixonado fita o abismo de si mesmo."

Mwanito por Mia Couto em Antes de Nasce o Mundo

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

New Soul

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terça-feira, 10 de novembro de 2009

O rosto é obsceno

Nelson Rodrigues disse certa vez: "Só o rosto é obsceno. Do pescoço para baixo, podíamos andar nus". Nunca essa frase caiu tão bem quanto no caso da estudante Geisy Arruda, agredida por seus colegas da universidade paulista Uniban por usar um vestido curto, expulsa pelos diretores e, diante da grita universal contra a escola, readmitida por estes.
Para Nelson, a obscenidade não estaria no naco de perna da menina, mas no rosto de seus algozes. Ele se perguntaria se, ao passar a mão na cara, os diretores não sentiriam "a própria hediondez". E tão imoral quanto a expulsão é o "perdão".
A readmissão de Geisy não cancela a violência e as humilhações. Só se deu porque a Uniban -bombardeada pelo MEC, o MP, o Congresso, a Secretaria de Mulheres, a ABI, a OAB, a UNE, a imprensa e inúmeros pais e mães com filhos em idade universitária - viu futuras matrículas batendo asas aos milhares. Invejável prepotência a desses diretores, que não previram tal reação. No plano internacional, a Uniban e o Brasil são motivo de chacota. Que país é este, famoso por suas mulheres quase nuas nas praias, nos cartões postais e nos comerciais de TV, que não admite um vestido pouco mais curto que o de Julie Andrews em "A Noviça Rebelde"?
Roga-se endereçar a questão aos 700 agressores de Geisy. Mesmo que ela possa voltar à escola para completar o ano, os brutos continuam por lá, com seu moralismo rançoso, sua coragem em multidão e, quem sabe, prontos para uma nova "reação coletiva de defesa do ambiente escolar".
Belo ambiente. A Uniban, quarta maior universidade do Brasil em matrículas, está em 159º lugar entre 175 avaliadas. Ou seja, é a 16ª pior do país. Isso diz mais sobre o lamentável estado da educação entre nós do que cinco centímetros de perna de fora

Fonte: Folha de S. Paulo, 11.XI.09 - Por Ruy de Castro

domingo, 8 de novembro de 2009

Fragmento


... nunca tive heróis para amar só por virtude... meu amor foi se fazendo assim, meio roto quando doce, amando as qualidades, as lacunas do outro, os encontros, as diferenças, meus ardis de desentendimento, o desejo do longo, a decadência do fulgaz, dizer adeus e ainda sim amar, errar e ainda sim ser amada... o gozo de poder ser, inventando a liberdade disso que pode ser amor...

Pedaço de uma carta pra ninguém - julho 2009

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Por um corpo que nos caiba

"Um corpo tornado passagem é, ele mesmo tempo e espaço dilatados. O presente é substituído pela presença. A duração e o instante coexistem. Cada gesto expresso por este corpo tem pouca importância “em si”. O que conta é o que se passa entre os gestos, o que liga um gesto a outro e, ainda, um corpo a outro."

Denise Sant'Anna em Corpos de Passagem

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Dicionário do Desejo | Liberdade


travessia - o imponderável de cada momento (horizonte)
vinco - ruga sutil onde guardo meus brinquedos (dizem das meninas dos meus olhos)
dor - violência de água e sal que lava o que não fica (tempo de respiro)
cavas - onde a criança me abraça, frágil, amiga e livre (balanço que dilata)
olhos - morada da mulher (registro do mundo)
mar - verde onde quaro as dores e pouso o olhar (regador de alegrias em mim)
pipa - meninices ao sabor do vento (vontade de dança empinada no ar)
asas - nascedouro das idades (plena em seu tamanho)

na pele - poros e costume de arrepios (fruto desacostumado daquilo que toca)

nos passos - pés tocando o vento (aprendizagem do que voa)

na areia - massageio meus sonhos (saudades do que vem)

no peito - poesia fazendo-se em asas vindas (caminho do que anda)

no desconhecido - a vida se fazendo num sopro (dolorido)

na palavra - silêncio sufocado (agudo que viola e faz nascer)

no lampejo - susto com o esboço nascente (fincado na vontade)


lugar - leito preciso no peito da gente (sentido)
amor - bicho barulhento que dói, move e é bonito
mulher - um jeito da vida acontecer (e-terno e forte, mesmo no miúdo)
acaso - tempo assintoso que insiste em bater
escolha - destino do que é vivo (ciranda)
vontade - dizem do começo do corpo

acercada dos meus não me arranco mais de mim, atravesso nossos corpos, delatando meu deserto, que seja, horizonte, quedado, travesso, fincado, roto e até dolorido, porque seu vazio é pleno, fundo, liso, sinuoso e cheio de gente. vida no corpo é coisa desanunciada, cruel, necessária, bonita e imprecisa. aqui caminho pelo desfiladeiro, conquistando cada gota que me vara, quente, frágil, forte e frágil de novo. salto novamente só que agora grave, estreita e sem urgência. tem um pedaço de corpo, acaso, calma e pele, pulso entre a palavra e o silêncio, (hi)ato quando acontecido. e que o also deste vôo seja lugar, amor, mulher, acaso, escolha, vontade, antes e depois, tudo matéria, obstinadamente viva.

Não sei onde li ou se pari agora um silêncio assim: Liberdade é nome de pássaro difícil!


Vôo flagrado e postado em Ferida Aberta

domingo, 16 de agosto de 2009

Locked in a room

Corpo, bagagem, limpa, molhada, histórias começando trancadas na sala de nascer.

video

Locked within a room of memory
Locked within a room you stand
Locked up away with no light of day
Locked in a room you begin
To find your way out
You find your way in
Locked in a room with your memory far


Oren Lavie - The Oposite Side Of The Sea

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Tempo

O tempo que conta
A conta do tempo
O que o tempo conta
Tempo: testemunho de criação





Arte de Mihai Criste

terça-feira, 30 de junho de 2009

Para me sentir

Multipliquei-me para me sentir.
Para me sentir,
precisei sentir tudo.
Transbordei,
não fiz senão extravasar-me.
Despi-me,
entreguei-me.
E há em cada canto
da minha alma
um altar
a um deus diferente.
Fernando Pessoa

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Pelo caminho - Epifania Urbana

Para ser mais cidade do que vigas colunas e concreto



Pela janela da morada

Avenida Paulista, 23ºandar
Março 2009

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Alquimia dos postos

"os opostos se distraem... os dispostos se atraem"


O Teatro Mágico


Cidades do meu corpo

Tem coisas é que começam pelo meio, desembarcando sem prontidão mesmo. Como a zanga destes que desentendem as oficialidades de existir e insistem no tempo. Primeiro aquele braço destendido em meio a vala. Os gritos ancestrais tentando desdoer, sem nem ter aprendido a confiar. O homem que na sala soluçava como quem devolvia ao mundo o amparo de um abraço ofertado. O respiro do rosto pequeno tentando sustentação, pés e danças depois das asas. O desnudo desenho do sulco no caminho da perna, contando das violentas derivas e ausência de terras. O embargo no estômago diante da larva denunciando a insuportabilidade do meu também nascer. Depois a tempestade que tragou a raiz da guia e escarrou a árvore na avenida, zombando da urgente ânsia humana... tantos fins desistidos sem trajetos. Uma vontade se repete e quem me bate é a vida: desejo de acreditar na orquestra dos afetos, da melodia que se abraça no elo, no tempo. O orgulho secretando o intenso, a presença desertando o olhar e a pergunta que não cala: o que tem-se feito?

Há qualquer coisa de movimento no sutil e uma delicadeza e tanto numa violência que não pára de mexer dentro da gente. Algo clamante de encontro, encorpando, passeando, ventre prenhe que gesta miríades de tempos, afã desiludido que ainda chupa a sobra do gargalo da noite; abraços ainda nem vindos; um galope sem cavalo destino ou destinatário; já não é um amor, uma falta, é como um trote desamparado que deseja não falecer, que se busca algo de morto é só pra sentir a contextura de querência, ódio e outros avessos do humano.

Frequentam-se esquinas onde servem cevada com ou sem poeira, onde dizem não saber, porque é charmoso uma liberdade que finge que vai, enquanto não se afirma, acreditando que o fundo já volta. Já não se faz contato em nome da preservação da própria espécie e do umbigo, pois autonomia já é quase verbo ditador nos manuais de ser. Há também das alegrias fáceis e baratas tingidas de buracos e brincos na carne do asfalto, cabelos irregulares, tatuagens na pele - feridas de guerra contemporânea trajada de radicalidade.

Ouço de dores, nomes sofisticados para porosidade ausente, escamas intumescidas e couraças ressecando a epiderme. Parece também haver no corpo uma pressa, medo secretado na paragem, travestido de coragem blindada, quarto que anestesia, varandas de portas amordaçadas e salas de não estar, casa que decoramos e não nos aventuramos a entrar, porque nela pode ter algo de umidade, de vidro estilhaçável, contado do elo macio e necessário que também se rompe, arrancando telhados.

Vendem-se felicidade em cápsulas e abortam-se amores, já que Fim é o destino de toda transitoriedade. Uma decisão corajosa e salvadora de antemão, palatável-preguiça-aceitável que evitam as dores e cicatrizes do depois. Poupar o corpo agora para não ter que distender o movimento da perna e derrepente, mesmo ele sendo maior do que o suposto, constatar que não é o suficiente, pois não há salvação para verves e carnes. Tem-se disfarçado interrupções sob o argumento de multiplicidade de oferta, fraqueza de corpos e imprevisibilidade do acaso. Esgarçado tramas inférteis noticiadas sob o nome de memória, tolerância, carma infinito, paciência e asas machucadas.

Conversamos de amenidades para indiferenciar o assombro do que pode ser complexo, que largo é aquilo que alegra, escandaliza, mostra o frágil, força nascente. Complicamos as falas e inventamos demasiados excedentes para não pronunciar o mais temido do amor: sua precisão de acontecer!

Uma perna firmando um passo, depois o outro, uns adiante e já não somos mais os mesmos - alguma rua já nos atravessou. Falamos da academia pra não dizer do desasssossego do que não sabemos; da cidade pra não desvelar a inabilidade de tecer um convívio. Afastamos-nos em silêncio para que uma das vozes não denuncie um pedaço de aposta não quer partir. A gente briga pra ver se convence que vai sentir menos falta, porque afinal se a briga ameniza a saudade, diminui o amor. Antecipamos a despedida pra inventar que não foi, fundando o eternamente inviável.
Falamos de inteligentes ciências pra não vincularmos o que é sangue; da dureza do asfalto pra não lembrar que mesmo as árvores precisam do calor, da terra aninhando a semente na fecundação dos possíveis. Desqualificamos a desmesura do outro, pra e recusar que estivemos, escondendo que amar é o destino das coisas vivas. Uns dizem de fraqueza, outros de ausência de prontidão... Algum sabor de vaidade a espera por alguém que nos escolha, enquanto nos resguardamos pra não vazarmos do outro, em nós - descuidos arreganhado do que sobra, prosseguido na distância, é como morrer de fome no meio do banquete.

No meio de tudo que se parte, há algo de só que não caminha desacompanhada - abraços inteiros. O corpo agora acolhe o quase-tudo, amando as lacunas, os ardis, os vazios, dores e estrelas. Convido alguns poucos amigos, Cazuza, sinais, planos, vinho e (in)ventos. Os outonos são os mais tímidos por aqui, passo a fumar e ver, porque com os fins de tarde magenta também se abisma. Há uma pele que se torce fora, mas se refaz é dentro mesmo. Algo de quieto, violento e silencioso, que contabiliza as palavras pra não economizar no intenso, uma vontade espessa e gasoza que rasga onde não cabe, invenção de veias pra não intumescer o afeto largo.

Um imenso de invisibilidades transvasando o suor da mão, respira fundo, trêmulo, que segue-indo. Um jeito querendo lacear as tramas sem esgarçar o infecundo, deixando o sensível jorrar no colo, pass(e)ar nas horas, correr no espaço, lançar-se no tempo, apostando na curva - alinhavo do que vai -tessitura do que volta.

O que fica? E os "por quês"? talvez o dia de alguma idade traz ou não, já não se trata da desimportância do fortuito, é que agora uma outra já faz morada, é a que escreve, a que imberna gestando cios, a menina que chora acalantando vontades, mulher pequena que nasce de estreitas ancas, esperanças paridas de mútiplas maternidades, danças acabrinhadas comprando lírios na noite, tragando a nascente do vento, desdobrando o desamparo, desvio da história; víceras odiando o orgulho que apequena os possíveis, subtextos de não estar, avessando o olhar em luaridades que se embreagam inteiras antes de chegar em casa. Não são mais pontes, barreiras ou paredes, agora é o legado desejado em outras horas: alma toda nua, travessias de pessoas, ruas e avenidas se fazendo esquinas na cidade do meu corpo.

vinte e oito

Sol em vênus, corpo ainda descabido nos tempos que anuncia a ascendência em libra, destempero dos ventos, foi uma idade anunciando a fresca juventude.

Sempre gostei de ouvir a música das tantas páginas de um livro viradas ao mesmo tempo numa sala. Leitura junta de um pedaço da história. Diferentes corpos ocupando alguma hora, dedos em cima de um mesmo número. Um coro de respiro compartilhando o mundo.

É esquisito pensar que um amor, uma vida se nasce também assim. Instantes de encontro que não é mistura: um enorme, dolorido, vívido, que se arranca de si, partilha do mais, e sem delongas ou promessas, acontece.

Diziam que só uma vida poderia vingar bacia e clavícola fraturadas. Ele queria um fruto, árvore-semente, menina a contar do seco e doce do sertão, vontade de insistir. Mariana ou Jonas eram as possibilidades que atravessavam as belezas do nome. Verde e azul eram os panos de aguardar o que ainda viria em poros, cacos, forças e alambrados.

É em carne estreita que desço engasgando, escorrego e páro, já querendo atrasar, esticar os tempos, corte no ventre de quase quarenta semanas, descolagem de pulmões, violenta passagem ao frio da obstetrícia anunciando das densas travessias do fora.

Daniela Patricia nasci, sem combinados ou previdência, maré sem previsão, florência ausente de temporada, combinações fora de regra pra alegria farta do leite. Passo engendrando invisibilidades, pedindo que não me olhem, pois um jeito de ver pode restituir de uma vida por todas.

Uma inclinação a sonho, desvios pro onírico, noites sem sono, berço de angústias, braço que nasce é no carinho, sorrisos apequeando os olhos pra não miserar o vivo, colo de jorragens, peles se refazendo vida a vida, peito que escorre aos muitos nas paragens do trajeto. Ai... como a gente se faz é no caminho do que é (des) encontro. Dançava com os ausentes irmãos. Chorava só o desentendimento das horas, daquelas que não cabem nas contagens; e os amigos? parteiros de frágeis asas humanas, cirandas antecipando os mistérios de ser.

Por poucos me criei multidões de alguns, solidões de vasto descabimento. Corpo de mulher no ventre de criança. Menina emulherescendo sem aflorar em fibras. Desfiar as horas além dos sabidos projetos me fez carne, janelas, colo, abraço aflito, varanda no poente, seios crescidos no gosto do silêncio, ventre alimentado tragando o véu da noite. Enquanto lembro do piano canto e invento: "vai o bicho homem fruto da semente.... (memória)...renascer da própria força, própria luz e fé... entender que tudo é nosso e sempre esteve em nós... (história).... somos a semente, ato, mente, voz... (magia)... "

Dos vinte e oito sem perceber me contaram hoje, idade importante pros astros. No embargo do desgosto nem brindei escorpião. É que tem nascênças que principia na dor mesmo, algo se aparta pro novo então parir.

Ele morreu cheio de orgulhos nascentes, um durante o outro, primeiro os passos, palavras golfadas aos tropeços, depois os estudos, que me faria independente e feliz no amor; alguma aposta fortuita no que se pode ser retomava a confiança no elo, na vida. Ela ainda nos cria, com gosto de jardineira enrubrecida, pele macia e benção na despedida, exata medida do excesso no sabor do fruto, de sempre amar tudo que pode.

Tem aqui uma menina que assombra no invisível da noite; que morre aos pedaços no duro do que é impermeável; que se arrebata com o frescor daquilo que é agora, silêncio da manhã; tem um susto com o grave da voz, do que hora se chama de amor partido, interrompido sem ter aprendido a liberdade.

Depois de me intranquilizar com o tremor dos vivos afetos, violência sentida, tripidando as cadeiras ela me ofereceu o regaço do pequeno, imenso corpo à nascente-olhos-de-sal. Viver é de se fazer aos muitos.

Ainda não tinha afirmado aqui que aos vinte e oito também se nasce. Da cena ficou estampada a ternura na camisa do teu peito, marca de duas pálpebebras amparadas no desassossego do que é vida emparceirada. Pensava que reticências era só o inconcluso do que não se sabe dizer, arrasto do provisório; nisso um outro se inventa: são três pontos finais que se (re)afirmam na escrita do encontro. Só do fim se cria o novo! juventudes são idades morridas pras mais novas se aninharem. Violento aconchego este de saber que nada se segue só.

Agradeço pequena, sem pedidos, como quem vira a tal página, suspiro grande de quem sente o mundo junto. Gosto deste tom alegre de flor, legado que é pele, errância do que é corpo na deriva das apostas. Surdino desejo de que possamos; afinal o que muda o destino senão um encontro - afirmação de algumas escolhas? Avessos estendem-me das mãos aos medos, abandonos prosseguidos de cuidado, dizendo e acolhendo assim: viver também é maré forte, densa, grande, comprida, navegável, possível somente no enlace.
Essa idade me passou como travessias de silêncio - vinte e oito carrega em si um mar de tempos, presenças, todos os acordes e possibilidades de melodias. Quieta me escapam quatro palavras: Gracias a la vida!
09/05/2009

segunda-feira, 18 de maio de 2009

O ministério da poesia e da parceria adverte aos umbigos desavisados ou esquecidos: Solidão não é coisa de se fazer só, há de haver pelo menos mais um, nem que seja
ausente!


"a solidão é uma solução muito sozinha
a solidão não é uma
solução só minha
a solidão não é sozinha".

Viviane Mosè, oferendado por Lucélia. Gracias queridas!

sábado, 16 de maio de 2009

Da gravidez para o que vem

Inocência, é a criança, e esquecimento; um novo começo, um jogo, uma roda que gira por si mesma, um movimetno inicial, um sagrado dizer "sim"(...) para o jogo da criação é preciso dizer um sagrado "sim"; o espírito, agora, quer a sua vontade, aquele que está perdido para o mundo conquista o seu mundo.
Assim Falou Zaratustra no livro para todos e para ninguém

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Faceta Taurina de Vênus:

[...]
A virtude do amor é sua capacidade potencial de ser construído, inventado e modificado.
O amor está em movimento eterno, em velocidade infinita.
O amor é um móbile.
Como fotografá-lo?
Como percebê-lo?
Como se deixar sê-lo?
E como impedir que a imagem sedentária e cansada do amor não nos
domine?
Minha resposta? O amor é o desconhecido.
Mesmo depois de uma vida inteira de amores,
O amor será sempre o desconhecido,
A força luminosa que ao mesmo tempo cega e nos dá uma nova visão.
A imagem que eu tenho do amor é a de um ser em mutação.
O amor quer ser interferido, quer ser violado,
Quer ser transformado a cada instante.
[...]
A vida do amor depende dessa interferência.
A morte do amor é quando, diante do seu labirinto,
Decidimos caminhar pela estrada reta.
Ele nos oferece seus oceanos de mares revoltos e profundos,
E nós preferimos o leito de um rio, com início, meio e fim.
Não, não podemos subestimar o amor e não podemos castrá-lo.
O amor grita seu silêncio e nos dá sua música.
Nós dançamos sua felicidade em delírio
Porque somos o alimento preferido do amor,
Se estivermos também a devorá-lo.

O amor, eu não conheço.
E é exatamente por isso que o desejo e me jogo do seu abismo,
Me aventurando ao seu encontro.
A vida só existe quando o amor a navega.
Morrer de amor é a substância de que a vida é feita.
Ou melhor, só se vive no amor.
E a língua do amor é a língua que eu falo e escuto.

Vênus - Paulinho Moska

terça-feira, 5 de maio de 2009

Ética das víceras

Não separo meu pensamento da minha vida.
Refaço em cada uma das vibrações de minha língua
todos os caminhos do meu pensamento em minha carne.

O Pesa-Nervos, Artaud

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Desatando o nós, colarinhos do peito:

Ajuda-me a desapertar os botões.
O meu corpo é o único vestuário que poderei talvez usar


Helph me whit the buttons, Siv Cedering

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Sonho procura um Terreiro

Sempre gostei de dizer que meu pai se chama Luiz Gonzaga, caboclo, mestre de obras e que tudo isso era legado do meu avô Antônio, serralheiro, negro, ambos nascidos em chão árido, seco, de cabra macho, onde quem não é poeta, nem homem é. De orelhada descobri que ele assim o registrou, de peixeira na cintura, com o nome em homenagem ao compositor das mesmas veredas, afirmando que já havia batido muitas esporas pros seus cavalos.

Parceria insólita com a minha mãe, de nome religioso, Maria Aparecida, galega, de lendas mau contadas e fugidas de um pedaço Judeu da Alemanha para o interior de São Paulo. Por muito tempo a ouvi falar de suas venturas religiosas na busca da cura pra vida dura. Lembro que uma vez, em um daqueles comuns adoecimentos da infância, até em uma benzedeira de Terreiro ela me levou, era uma senhora negra, que dizia coisas estranhas e me segurava pelos pés, pra desvirar o bucho e no dia seguinte, depois de algum suador, nem vestígios de febre ou dor. O curioso é que nestes des-caminhos da vida recentemente, ao acaso, reencontrei este terreiro e com a infante memória, que durante algum período havia uma precária tenda circense em terras vizinhas, onde se fundou meu gosto pela alegria do picadeiro.

Desde a infância ouvia a boca miuda boatos de que meu pai havia sido pai de santo e tenho vagas lembranças do tal terreiro, que nunca sei se inventadas nas funduras do meu desconhecimento. Uma vida toda, sempre que pergunto, se repete um belisco e uma voz travada no canto da boca, daquelas que repreendem os devidos sigilos, como se deve fazer, dizendo que isso não é coisa que preste de se falar, pois botou nossas vidas em desgraça plena, e assim fiquei sem saber.

Anos passados até pra Bahia eu fui, buscar alguém que pudesse recontar minha negritude nublada, olhos e cabelos que velam nariz e bocas anscestrais. Bahia, chão onde aprendi alguma ginga da alegria, dança bonita, triste, livre a custo de muito sangue rola(n)do no Pelô, no tabuleiro entre o acarajé das baianas. Lá me apresentaram Mãe Detinha, senhora antiga, de cabelos grisalhos, roupa branca, olhos encobertos pelo tanto tempo, voz mansa que anunciava que não seria possível colocar os "buzo", porque em semana de festa de orixás, as obrigações são outras. Desejando fazer valer minha visita, contou-me sobre Iroco (orixá do tempo), história-universo com interpretações polêmicas entre os que ouviram, despediu-se, falando-me ao pé do ouvido, em segredo: "Fia, cê sabe o que precisa para retomar tua vida".

Quando as coisas do peito apertam a alma me abrigo na ternura e aposta - lembrança dos negros olhos. Pois bem, no ritmo do aconchego, mãe Detinha habitou um sono meu, pra não me fazer dormir. Sonhei que ela então, finalmente colocava os "buzo", um deles me trouxe cabalhota no estômago, estava virado, quase tombado e como quem gosta do desvio, foi sobre ele que perguntei. Era conversa entre mulheres negras a que procedia. Enquanto lembro, cantarolando, converso escrevendo: "Afrequetê, eu vim te ver e sem querer mergulhei fundo... Xangô já cansou de lhe dizer que teu calor é quem faz teu mundo".
Cuidando de qualquer minha pre-ocupação sinalizava que eu não me assustasse ou amaldiçoasse o jeito das coisas reverssas, aquelas que desentendo, porque vida é paisagem larga mesmo, lugar de se ter isso no meio de tudo; com os avessos e diversos diante dos olhos aprendemos a contemplar, se embeber, a convidar a coragem e apostar no que os poros ainda desconhecem, também porção de nós a se reinventar no tempo, abismando-nos em nossos delicados corpos. Cerrou a prosa-leitura assim: e se renunciamos ao desconhecido por medo, nunca viveremos algumas necessárias distâncias dos amores, próximas paixões, profundos (des)afetos, o que a vida tráz pra gente, o outro fica aguado para o nosso gosto, a escuta fica cocha, o desgosto se aproxima e o mau gosto nos toma.

Assustada com o desatino do sono, o interrompi acordando, tem vertigens que só são possíveis a conta-gotas, aos poucos, um tanto por noite. Tateava meu nariz, minha boca, a maçã do rosto, pedaços anscestrais de mim que conseguia acessar na madrugada. Percebi uma antiga sensação, presente como primeira: um tanto de Oxum, Iemanjá, Iansã, Xangô, Cabocla e outros desconhecidos guerreiros me amparando no breu, naquela noite e em toda vida, quando me despi das religiões, cavucando forças pra nunca mais evocar o Deus; nas cisões amorosas onde a raiva coabitava estranhamente com a ternura; nas quebras de pensamentos e práticas cotidianas, neste fio de loucura e vida... cada um me acolhendo por vez, ou todos juntos.

A vida é tão bonita que estranha, ela independe do meu entendimento para continuar a acontecer. Ultimamente estava assim, só sentindo que bons temperos, banhos, ervas, lavanda e velas curavam um bocado do corpo esfolado, da alma cansada, lavando as palavras, impasses, curando os medos, os pesares. Conchas de boa água além de matar a sede conta dos tempos de encontrar, que vai, vem, nasce, suja, se lava, passa e é passado, como as águas do São Francisco.

Essa noite me vesti inteira de todos os mistérios roubados ao longo da vida, aqueles que contei lá em cima, os que ainda desconheço. Sou mulher de fronteira, branca, negra, mestiça, cigana, clandestina. Agora já é olhos de amanhecer, passagem dos tempos, e descobri que nestas linhas onde me (a)risco me refaço, este híbrido sem nome é meu remanso, atracada, derivando, assim aprendi a rir, a brigar, a gozar, a acompanhar o que é tímido respiro, inclusive esta solidão primeira de história recusada, desta falta de identidade ou lugar, corpo também é território de nascer, marca sagrada de existir. Parece que é entre fendas que se inventa, se sonha, se vive e se ama. Sonho procura um terreiro-picadeiro pra dançar estas velhas-novas porções, descobertas se inventando, amanhecidas e acolhidas no tempo em mim.
22/02/09

sábado, 28 de março de 2009

Das nascentes vulnerabilidades

Dia destes um segredo me alcançou a galope, vindo de olhos mareados e profundos. Ela contava sobre um tipo de morte, daquelas onde não se vela ou enterra, mas que funda um corpo:"há nascimentos que só são possíveis com um tanto de vulnerabilidade, que não é fraqueza".

Ando com isso, suspeitando de uma distração nascente, que nos encontros há um tipo de fala e escuta secreta no sentido e ignorante das cavidades em que toca. Menos pela privacidade ou intimidade de certos temas em algumas esquinas, já que é há uma porção delas que não comportam incertezas, e mais pela força que certas palavras têm de mover o passo enquanto circula no corpo - errância a deriva fundando horizonte.

Um arrepio na nuca, alguma poça embargando o olhar, uma beleza quase sem sentido, ao menos daqueles óbvios e prévios. Sei lá porque, apesar de mim, a escuta guarda este tipo de palavra. Talvez registro de algum ainda por vir no (des)contínuo dos afetos. Ai, como me abriga esta maciez, preciso de uma casa assim!

Gosto da delicadeza destes momentos, quando simplesmente ouço e confio aquém do meu saber, onde sou arremessada além das minhas (in)certezas, improviso do profundo - conhecido popular daquilo que é pele. Silencio-me com estes segredos, como quem acompanha a luz esboçando a semente, folha, sol-raiz, delírios de uma paisagem. Certifico-me das ausentes garantias e me abraça uma voz longínqua dizendo:"tú tá acontecendo, morena!".

Sempre na curva do provisório, inadequações sinuosas e torpes. Recentemente, retornei ao mar da adolescência, açude salgado de algumas passagens - esteio-maré de tantas vertigens. Revisitei serras, lugares, praças, amores, sorvetes, procurava algo novo. Olhei quatro vezes a cicatriz antiga no joelho, recontei sua história outras cinco, uma sensação de repetição adensando o ar. Pele esfolada não é doença e sim versos de rupturas nas errânças do que é destino. Nostalgia? farelos de lembrança, cacos desalinhados, me cortando como farpa no mo(vi)mento-recolhida de alguns passos na história, só que desta vez o trote dos pedais na bicicleta era quem des-fazia os caminhos.

Um reencontro. Os olhos mel-agateados, aquela mão que nem era bonita, mas que já foi toda minha, fala pausada de boca cheia, dura, de lábios pra fora, de sentimento pra dentro, vírgula no pensamento, reticências no abraço... tem um regato de vida que se desvenda mesmo é sem palavras, nem ouvia o ritmo da conversa misturado ao poente, não lembro o conteúdo. Algumas despedidas dispensam formas. Um sorriso roto, pendurado, olhares fugidios, uma morenice morna, menina, liberdade adestrada em surrados pacotes de promessas, "ócio criativo" embalsamado a beira mar. Na fuligem das lembranças um açoite, o que era saudade ameaçava tornar-se uma contabilidade afetiva, mas quem dava o troco era a lua das marés.

Há na vontade um limiar nem tão estreito assim, uma desacomodação inevitável, uma tensão vital e necessária. Quero de um vôo toda sorte de uma vida inteira, do intervalo do beijo a saliva inflamada dos dentes. Nesta hora tem uma febre, uma ira quase umbelical, primitiva senão fosse tão familiar. Tem no tempo gravidezes infindáveis que me varam, luaridades sem pai que desprezam a adoção do sossego... Quando a boca resseca, o olhar desvia e o ombro pesa, o corpo vira placenta, preciso ir-me senão me sobram palavras e me falta o ar, é hora de bolsa rompida, sem pará-medicos, ou fórceps. Regando este árido tem um torpor, uma tristeza que mal-diz por dentro, que me leva pedalando pra fora, um nascimento-dignidade de poder partir e uma secura, quase raiva que não consegue aceitar o amor co-habitar a mesma vida, junto ao despedir-me.

Face quente, suor e protetor solar se fazendo e secando na pele ardida. Vento denso no rosto - despedida arrebentando a paragem. O choro não vinha, nem que fosse por ódio. Como pode tanto mar diante das minhas entranhas ressequidas? Um nó na garganta - um aparto me grita: merda, nunca aprendi a me despedir!

Da lembrança de alguma beleza do passado, um arrebatamento, nasce a primeira gota, a segunda de um embevecimento largo ao cumprir o verso-lamento: sempre amando mais do que posso! Queria ainda uma terceira, quase uma sandice incrédula, como judas negando cristo - no terceiro não eu enterraria então os momentos vividos. Mas ela não veio, é que eu também nunca aprendi a abortar um amor, eles sempre morrem de alegrias vingadas, de tempo vencido, passado, de morte morrida mesmo.

Recontei-me a história das lágrimas. Lembrei dos meus desintendimentos acerca dos funerais. Um alento: eu não chorei no enterro do pai. Nem por orgulho ou força, é que nunca consegui irrigar chãos inférteis por tristeza. Tem forças de existências que só acontecem na aridez do solo partido. Fiquei a lembrar de rochas de sal, dos cactos e das lhamas no deserto. Quando um amor deixa de me irrigar, é como enterrar os ainda mais antigos e disso nasce uma resistência, pétalas e farpas - trincheira de desejo além. O si vomita as instruções de mundo, expurga vozes razoáveis, habita desacostumamentos.

Um rito funebre se desdobrava para além das minhas águas, só que desta vez no sal do mar. Aliás, como é bonito saber que ele acontece sem mim. Quando um enterro deste calibre me atravessa não é alguém que morre, mas um tempo de amor, um jeito de amar. Uma destruição que libera, o ar chegando nos poros, um sentimento de morte anunciando que o corpo já nem é mais o mesmo. Derrames de excessos, desentranho tatuagens, qualquer resquício de vida desmaiada, viro pequena, pedaços de afetos aos muitos.

Sentia uma corda, já não mais no pescoço e sim nos ares, fiando-se em meus pés, daquelas dos caminhos do céu. Iluminação? não! o caminho de traz não me cabe, os das alturas desconheço, e o horizonte, terra pra não despencar no abismo me acolhe. E as asas que ainda não me nasceram? Fragilidade? não, é vida nova como desejada e ansiada nos errantes pedais. Agora sigo sendo lâmina, recitando algo de raiz, de humano, de fêmea parindo na noite.

Na ladeira do peito tinha este outro caminhar, um molejo cansado, uma bicicleta e uma larga vereda de vida inteira a seguir... pedalava queixosa com as ausentes asas. Sempre imaginei que a liberdade era coisa alada - risco captura de se encerrar numa imagem. Desde antigamente na orla vejo-me pequena, é tanto imenso... o mar é tão bonito que vai, o ar é coisa tão livre que voa... Me recolhi na miudeza do respiro possível, atinei que não voava, mas pedalava, experimentava então as derivas nos caminhos de um chão-despedido. Não tenho asas, e sim pernas de percurso, de fazer indo nos longes. Às vezes um jeito de acreditar se parte na'gente, parece que é morte para sempre, mas se chamada de nova, a vida atende, não são cacos de um vitral e sim estilhaços na carne de um corpo vivo. Tristeza quando bate, também espirra, estranha.

Existir às vezes parece um monte de tropeços, cuidados prosseguidos... vida nova e contínua é coisa difícil de se fazer pedalando, experimentando na largueza das escolhas disso que é caminho. Sempre temi o encantamento do que parece nascente na ruína, porque aí tem um velho-atual derrame, jeito de estar que nem é razoável sem Uma história, nela interrogo os espaços e uma fissura me cede a derme - perplexidade abismal: fruto de excesso do que já não me cabe mais. Não se tratava de reincidência e sim de um corte no contínuo de um movente fluir. Lembrei daquele segredo do início do texto. Tem coisas que são tão delgadas que só nascem no vão de uma vulnerabilidade. Quando me pego em dor de poros esgarçados, é como num sonho de asas, dói, convulsiono nas víceras, dilato e quando percebo me encanto sendo menos. Tem um passo que parece que é rasgo na carne, posso chamá-lo de catástrofe, des-eixo, colapso, sofrer, mas se cuido das dores e o chamo de vivente, ele segue no horizonte.

Nos vocábulos e dispostos em geral, despedida diz da saudade de pessoa, coisa perdida ou desaparecida, "de um bem que se gozou"; separar-se, lançar-se de si, soltar, partir... Aqui, dizía-se de uma dobra-distância, espaço recém existente, infíndável (como crianças em anéis de saturno); Agora, abraço difícil de desazer-se, embaraçoso e delicado vínculo de uma delicadeza, improvável ir-se. É curioso, há anos ensaiava Um adeus me emprenhava desta carta, e os braços (asas?), a nudez da folha branca, de um processo ainda nascente me convidava ao assombro; des-idade, antecipação por me adiantar sempre, tantos anos a frente de cada hora. Desperdir-me é um estado sempre trêmulo, presente tripidante, silêncio grosso, intratável, que viola, antecedendo as des-horas vulneráveis de nascer. É uma espera longa, essa de grafar inteira.
Fiquei pensando que despedir-se é nascente, nome-fenda, alegoria vulnerável, água onde se mata a sede e a vida invade; uma gravidez dos tempos, gestação encontrada no limite-desordem disso que nos chamam de caule, corpo-combate, re-existência, invenção além de profundezas e precisas distâncias; chuva a semear o novo quando já nem mais espero o fruto peco; raíz calcada alavancando a existência que segue no (des)encontro. Escrevê-la aqui é feto embriagado, volvido inevitável daquilo que se chama partida; urdir os tempos na escrita é coisa de se fazer quando vai acontecendo.
Escrevi esta carta inteira no aro da roda, na brisa do sal, dentro do corpo, na vontade de lágrimas, nas margens do mar... Hoje era só tristeza, engolimento de voz trêmula, víceras tombadas na orla, nem havia papel, teclas ou letras e ainda sim entoava no ventre um desejo de escrever que NASCI e nascer as vezes é frio, é ar descolando os pulmões, deslocando a carne dentro, sopro pulsando na'gente... guardar as palavras dos olhos, acolhe-las no colo, do fora aos dedos, contar-se as vezes é aos (de) muitos é como um derrame de dobras parido de si.
nenhum outro agosto, é fevereiro de 2009 mesmo.

terça-feira, 24 de março de 2009

Desassossegando


“A única maneira de teres sensações novas é
construíres-te uma alma nova. Baldado esforço
o teu se queres sentir outras coisas sem
sentires de outra maneira e sentires de outra
maneira sem mudares de alma. Porque as
coisas são como nós as sentimos – há quanto
tempo sabes tu isto sem o saberes? – e o único
modo de haver coisas novas, de sentir coisas
novas é haver novidade no senti-las.
Muda de alma. Como? Descobre-o tu. (...)”

(Fernando Pessoa - Livro do Desassossego)

quinta-feira, 19 de março de 2009

Rumores


"Tem gente que quebra espelhos e aspira o azar, quem sabe um outro nome para acaso. Dispõe-se a explorar o estranho em si, conectar-se com o intempestivo, o sem nome que lhe dá boas-vindas. E força uma fenda em sua intimidade. Rompe com a cadeia de condicionamentos a que chamava viver.

Desalojada das formas em que se reconhecia, um discreto lamento começa a assediá-la, mas finge não escutá-lo. Decide apegar-se com fúria à urgência dessa nova vida, intensivamente frágil. Não lhe passa pela cabeça rotulá-la. Prefere carregar consigo esse inominável estado inédito. Prefere de agora em diante deixar a porta aberta."

Trecho da tese Rumores Discretos da Subjetividade - Roseane Preciosa Sequeira

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Escândalo de alegria



Pensei recentemente, num tipo de alegria casal-de-flamingos: um escândalo sozinho, plácido, prosseguido e acompanhado, que derruba n'agua algum contorno de beleza, anglos e engulhos de silêncio.

Qualquer semelhança é só vontade de vida pulsando!

Los Flamingos in Deserto do Atacama - jul/06

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Ecos Urbanos| des-série: dicionário do desejo

Eco: no dicionário - rumor, vestígio, funcionamento de dispositivos por reflexão; repetição de um determinado desenho sonoro; na cabeça - memória em conta-gotas ao longo do tempo - nas entranhas: mudança no jeito de sentir o que foi - no corpo: iquando já nem somos mais os mesmos - nos destemperos de humor, dilatamos a voz e abrimos o eco - diz-se daquela nota ou palavra que deriva, flerte-cambalhota entre espaço e tempo; no intenso: um vento de povos nos revolvendo - nos poros: uma mão junto a nossa contando, é por aí mesmo - na cidade - composição, luz na retina, flagrante delírio de cores, águas e brilhos - nas ruas e bordejos paulistanos: dobra da carne, limiar das víceras, de suportabilidade da violenta beleza de um lugar e tempo a cada instante Outro. Segundo Manoel de Barros:"repetir, repetir, diferenciar"














Por Jorge Drexler (Eco):

Esto que estás oyendo ya no soy yo,
es el eco, del eco, del eco de un sentimiento;
su luz fugaz alumbrando desde otro tiempo,
una hoja lejana que lleva y que trae el viento.
Yo, sin embargo,
siento que estás aquí,
desafiando las leyes del tiempo y de la distancia.
Sutil, quizás,
tan real como una fragancia:
un brevísimo lapso de estado de gracia.
Eco, eco
ocupando de a poco el espacio de mi abrazo hueco....
Esto que canto ahora,
continuará derivando latente en el éter, eternamente....
inerte, así,
a la espera de aquel oyente que despierte a su eco de siglos de bella durmiente...
Eco, eco
ocupando de a poco el espacio de mi abrazo hueco....
Esto que estás oyendo ya no soy yo...



Cenas distraídas do meu enamoramento por ti São Paulo

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Por toda sorte de uma vida inteira

video

Do descabimento em tempos recentes:
Toda sorte de uma vida inteira
"é só o que me interessa"!*


Lenini em Labiata (disponível também aqui)

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

"Essa água quieta desejando a sede"*
Em horas mais honestas
como só se pode depois de experimentar
um verso passado se desmente
boas conchas d'agua
pra hidratar áridos poros
das fraudes despidas na poltrona
no asfalto
Tudo seco
menos a umidade do olhar
Sol?
dias cinzas para o assombro das víceras
que venham as águas
arar, fundar e arraigar a nascente-planta-raiz dos pés.
* Livro Aberto por Vitor Ramil

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Para não esquecer de lembrar



Talvez o mais bonito dos encontros esteja no que não foi dito, nem por histeria ou desejo de falta, mas agora me parece que qualquer palavra é insuficiente pra contar o que acontece. É que nesta lacuna há um tempo em que menos do que explicar, é preciso viver - tessitura de um sentido; lugar onde um bocado de impossível também nos desenha, parindo filhos no mesmo corpo, nos fazendo estrangeiros em nossos próprios caminhos. As vezes sinto que só um tanto de liberdade, inclusive para não dizer, ou falar não, faz o que é, ou o que vai se fazendo.


Acho possível qualquer encontro entre diferentes criaturas, contudo difícil e provável no tempo de tantas coisas (metrô, inclui, trabalho, deleta, assiste, retira, agendas, guerras, semáforos...). Um monte de convites, salpicados de fugas, mãos e insustentabilidade de estar junto. Há também aqueles momentos em que finalmente dizemos "SIM!": uma autorização para que o outro se mantenha outro em seu abismo e ainda deste lugar finalmente nos toque, nos entre, logo saindo, quando sem maiores pretenções deliberamos que simplismente seja(mos) horizonte. Talvez isso, na presença ou ausência de palavras, mais ou menos toscas seja um comum desejo, entre nós, demasiadas criaturas.

No corpo tem uma tolerância, resistência além: ternura vital ao convívio de mamíferos e uma raiva necessária, que eu quero toda porque é nossa também; um lugar de lembrança, de atual que é hoje, que pouco importa a hora ou onde. Tem um espaço que é cálido, tácito, ontem, amanhã, entre, agora e urgente, quando num encontro finalmente se refaz espaço-tempo, importância de viver, e é nesta fronteira que finalmente reaprendendo com quantos dentes se faz um sorriso!!!


Neste sentir há sempre uma largueza primeira, nem sempre altiva ou miserável, onde humilho meu orgulho, algo que deixa de ser segredo, porque nem é tão privado assim, uma coisa que afirmo somente na solidão diante da tela, dos olhos que que não me vêem: a miudeza de tais palavras não é indolor só porque lava meu rosto e tece nossos sorrisos, é possível que só consiga proferí-las por reconhecer sua efemeridade e desejar que permaneçam, elas, vocês, recordadas, grifadas, aqui, todo mundo dentro de mim.
Existe um silêncio quase anscestral que nem sempre é abandono, toda vez que se hospeda na gente, é como se fosse a primeira, é como um hóspede nos conhecidos sentimentos, as vezes quando chamado de solidão ele também atende, desde que haja coragem e amizade e quando convidado, simplismente vem nos derivar. Ele se assusta com o frenesis dos falatórios, mas no fundo é só a gente convulsionando, de vida estranha pulsando.
De tempos em tempos sinto essa liberdade sem data ou nome me arrastando, talvez porque só um acaso necessário possa nos tomar os destinos (ou desatinos?). Não canso de me surpreender com uma habilidade de lembrar e perceber onde o cabelo faz a curva, sensibilidade onde nos dobramos sobre a própria existência. Arrisco dizer que o mais sagrado disso, é que nunca conseguimos fazê-lo exclusivamente só. Então, ausente de explicações ou garantias só sei, baixo, sem palavras, consciência ou nomes, vezes mais malemolente, outras mais ávida, circense ou milongueira, que é tempo de dizer SIM!!! a todo eterno-finito que pode caber nestas três letras.



Mãos anônimas e de todos, por Saudek.
Pessoas passadas e presentes, que me vararam na vida e grafia do texto: Eymard, Glória e Bruno.


terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Um assovio seco, fino, dentro,
parecia dor.
Aridez?
é verão
não há mais gotas pra molhar!
Foi só a mira-lembrança
da larga e delicada ruína,
diferença?
avesso da memória,
beleza daquilo que nasce pela primeira vez.
Existir é arte de muita coisa,
fico exausta, rota, enxuta.
É que as vezes
sou estrangeira nas minhas recordações.
Noite quente
de passos tortos,
poros agudos,
esquinas secas.
É um calor grosso,
doce,
febre de quem dobra o impossível,
esperanças ressequidas.
E um verso insiste:
“essa água quieta desejando a sede”.
Nem é força ou ausência
É só uma brisa,
que não é tempo,
silêncio é um vento sozinho dentro da gente!

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Retrato do meu sossego - Praia dos Pelados - Paraty - jan.09

Fundo aqui o pé que não ficou na areia.



quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

é tudo que nasce! | des-série: dicionário do desejo

Natal: no dicionário, dia, na geografia, lugar onde nasceu Cristo -acompanhada de credos: estampa religiosa - da janela: pessoas amassadas entre ruas e sacolas, arrastadas por frenesis e pacotes, se internando nos congestionamentos, consumindo idades, procurando o significado do festejo que compraram junto ao manual em Esperanto - nas famílias: angústias boiando nas taças - entre os casais: dia quando o que foi tecido no quarto é arremessado na ceia - nas árvores: luzes e presentes ocupando vazios - no aceite cego: densidade primeira para a tal "noite feliz" - na mesa: a uva lavada na promessa do que nunca de cumpre- no presente momento: retirada da farda, desobrigação de festejos bíblicos - no desejo: nascente de vida convicta - Aqui: bom vinho e vida pulsante, com tudo que pode caber nisso - Disse Estamira: natal é tudo que nasce!

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Soluço de Vida




Entregar-me a humildade de ser brisa
aquela da insignificante importância
entre o suor vivo - incômodo do calor
e o assombro do trovão que anuncia a tempestade,
é água mole que leva o que não fica,
o menor onde reside um miúdo-imenso contentamento
ser o que se é, habitando a minúcia
minúscula fenda entre o que foi e o que será
abismo, lugar, aquilo, tempo, algo ou alguém
largo e vertiginoso que desconheço em mim.

Con-fiança é o derrame de uma linha
fiar é trama que me arrasta ao esquisito
fé no outro, em mim, na vida:
coisa suave, de só sentir
que inclusive exige mais delicadeza
e menos munição.
Não se trata de combater e sim concebê-la.

Uma crença ignorante em palavras,
sabor de quem pressente liberdade,
arrebatadora,
menos por aquilo que a mira alcança
e mais pela distância lançada entre os corpos.

No pé de trás abandono os cadáveres,
o outro é vítima do frescor de só estar na grama.
Caminhar fiando o percurso
é deriva de acontecer fazendo.

Rio nos corpos, pirilampos
frio no pé, calor na língua
e abraços caninos de relva na noite,
anunciando uma natureza
nem planejada ou prevista,
só um desejo do inevitável aconteceu:
um ritmo diferente de ontem e provisório para amanhã,
assoviando que não será esquecido,
lugarejo onde contínuas águas me passam.

Toco com os poros,
passos despidos em lugares mansos e urgentes,

um fundo?
Sim!
a geografia das forças que me rebelam,
me lança para onde já nem sou mais refém.
A alegria de dentro é tão bonita, que nada
tão liberta, que voa,
é tão amiga, que abraça
já nem tem autoria
e agora é tão conquista,
cuidado do acaso,
que não está em qualquer outro corpo que não o meu.

Nem é larga, em letras garrafais,
mas é tão legítima de um percurso,
dasate do nós,
que funda uma clandestinidade em mim.

Do desejo de aguar ao delírio de fluir.
Um sacolejo desancorado me resgata da indiferença inexistente;
sofro de um segredo antigo que me toca novamente:
desassossego,
diferença,
pura rede do desembaraço em existir,
nuances daquelas ondas que já nem são mais as mesmas.

Um ar me escapa do peito,
susto?
um soluço
de quem cometeu um crime,
frio?
Não...
é beleza escandalosa
ritmo pulsante de voz denunciando:
Socorro! a vida me passa!!!

Desvairadas forças me invadem
me arrancam os órgãos da dor.
Sobre isso não há muito que fazer
senão nadar.
Uma inclinação pra chuva me acompanha:
cair fundo e deslizar no horizonte.

Aviso aos amigos
que não se trata de algo grave ou agudo
é apenas uma vida cronicamente delicada,
inquieta e teimosa
que insiste em alegrar-se;
é só aquilo que me nasce de novo,
na inventividade de sentir,
sempre como uma primeira vez.

Lembram que lhes contei de uma linha, um fio?
então,
ele é um regato, fino, delgado e honesto,
menos por limpeza de caráter
e mais porque a vida é corda que não autoriza o abandono.
Dis-traída sim, jamais renunciada.

Gracias a la vida?
Sim!!!
Agradeço o regalo,
entregue, pequena
em silêncio,
sal,
gargalhadas e águas misturadas.

Agradecimento,
não mais por gentileza e/ou esperança,
é só afirmação da insuficiência de palavras contando
que sem ela,
já nem sei mais viver.


Retrato: Descabelo baiano flagrado por Vitor Freire (Salvador - nov. 07)

No bolso fundo da "japona"

Em tempos de víceras é bom saber a distância da própria carne

sábado, 22 de novembro de 2008

O que chama saudade (?)

Pensava que estava preguiçosa de escrever, murcha de paixão, veja só. Lembrava dos amores partidos, do menino antigo perguntando "qual o nome desta palavra?", seguido de "o que chama saudade?", e do Sr. Luís Flores, taxista chileno ao me contar do Golpe, perguntando "o que és más que nostalgia?"

O vínculo latino do espanhol, ela andando nas beiras do rio Mapuchi, o bilhar cheio de novo, a figueira fiando os encontros, a cadência de um tango desmentindo todas as idades, a polícia federal autorizando a partida; o desaprendizado do espaço nas andanças em "la Corrientes", as crianças da Islândia*, "las vertiginosas cascatas de los cielos", Corcovado em poros, Salvador denunciando o torneio das cochas, a manobra no volante se aprendendo; ela, eu e Eliane Brun no mesmo desatino; as cédulas no chão da padaria, a ocupação da casa; a presença naquele retrato; ele me contando das coragens cariocas; nossas derivas no caos; o cheiro de erva mate, os balões da minha passagem, o gosto da neve, eu e Pablito "chiquelinos"; o filtro vermelho banhando as prosas sem fim, os olhos des-pedintes autorizando o namoro, a moto no asfalto, a Paraíba inteira a conhecer; vento no paraquedas, a distância contada pelos mapas, dias de chegada, um andar baixo e torto, aquele amor que poderia ter aberto o peito e se despreocupado com a porta, a infinita paciência da tia Luzia nos ensinamentos matemáticos, as praias de água doce, o relógio denunciando as auroras, borboletas no vácuo do estômago, o reencontro contando as razões indizíveis de uma despedida, uma precipitação na curva da inabilidade, aquela fala lânguida, cheia de gosto de vida sem pressa, idades adiantadas na solidez do verbo, o calendário contando dos versos que se vão, o formigamento nos ombros anunciando o novo; uma presença de futuro, assassinando o presente; a invenção daquela voz, a acepcia de uma febre, o sorriso-menino me roubando da máquina, um desatino antecipando a ida, os fios dourados saindo da cabeça; o sentido da partida dilacerando o peito e autorizando o corpo, a justeza da mão no encaixe da cintura estreita, as pernas que não desejavam partir e no entanto se foram, aquele peito que nem era largo, mas era pleno em acolhimento diante do meu sempre desentendimento das horas na vida; des-caminhos pela cidade, minhas águas flutuando nas ondas do sal, a ciranda no concreto da paulicéia, aqueles circenses brincando com a vida no fio dos malabares...

Não se trata de um encontro nostalgico, é que tem dias que tudo vira cantiga sentida, rebenta de saudades. Sempre gostei de registrar, inícios, restos de dias, inteiros de vida, trechos de diálogos ouvidos com cantos de olhos, borrões-froteiras, invenção de cores que contornam e enganam a vista miope. Corpo: folha limpa, campo-registro dos invisíveis que parecem sustentar a vida. Já chamaram de prosa-poética, de foto-fundo-de-retina. Mas eu acho que a grafia é lugar onde sobrevivo a mim mesma, degusto ou vomito a metade que ainda não digeri, aquela que ainda não nasceu. As teclas, tinta, obturador, palavras e trechos do vivido são travessias na densidade de existir, um trago-dobra pra fora do engolido vento-soluço.

Dias de mudez, as perguntas voltavam, o desaprendizado sobre o nome das palavras, as dúvidas escorriam grossas em pleno desamparo. Escrevia cartas para ninguém, sem cor, papel ou letras, como que sinal da memória, transbordo para dentro, escapando pelos olhos, pelos dedos. Falta de palavras foi o sentimento de uma saudade, lugar bom de fazer silêncio. Não escrevia daqui, mas dos caminhos do viaduto, no descabido das calçadas, no azedo suave da uva, visitando a correria pela janela, na risca do meio fio, ouvindo notas de vozes, da estampa dos lençóis, da carne no concreto, as trilhas do céu. Fogueira em corpo só, fazendo as horas voar na debilidade de quarta feira alguma. Solitária de quem (s)?
Desejei ignorá-la, deixei alguns dinheiros no cosole do carro, para que alguém a roubasse junto, restituindo os lutos, devolvendo as idades que foram, mas descobri que isso ninguém quer, porque é coisa de cada um ter a sua. Saudade é que nem história, bicho teimoso, desmente a razão, fiandeira do tempo, não cabe em verbo algum, vertiginosa arte de minúncias, de dar tons aos detalhes, de denunciar os amores partidos, pedaço de inquietação, abraço agonizando, senhora das idades, convite ao desatino, sofrimento de carne, casa de se visitar inteira, da sala aos escombros do porão, víceras ao contrário, avessos de todas as gravidades. Como impedir uma morte, barrar uma ida? Como expulsar uma saudade? um timbre fino arranca o coração a unha, é o peito que me bate, medo de morrer de poeira, de ouvir Maysa e não dançar bolero. Não é ausência, mas rombo presença do que já não há.

Em angústia larga me tomam as lembranças, filme invisível do que foi diante dos olhos. É que há bonitezas que só são possíveis admirar diante do embargo da vista, do turvo da lágrima, o vulnerável do molhado então me abraça: saudade é como uma distância sentida e impensável? Achei uma imagem bonita: "uma distância penetrada e irrigada de ternura"(1). Assim é a saudade que me cabe.

Agora quero escrever inteira, fala sem lígua, do vazio ao eco. O sofrimento conhece poucas notas, linhas retas e estreitas. Do sofrer ao sentir. Sofro de abismar-me, deste inevitável espaço entre eu e o outro, seja aqui, morto, ou ausente, sempre outra coisa; sinto presença, memória, reticências de todo mundo, no, aquém e além do meu peito. Do aperto ao derrame da cidade em mim.

Saudades tem também vontade de linhas, um "entre" o passado e o por vir, artista de horizonte, improviso do amor. Tem uma borda que fala dos abismos, limite das coisas, dos corpos, que registra a precariedade da carne no desejo de fusão, seja em tempos, peles, espaços; que conta dos encontros possíveis, das erupções, estribilho de vida, fronteiras do chão. Danada, despenteia certezas, bagunça a gaveta, entorta a imortalidade inexistente, empina pipas entre palavras, imagens e esquinas.

Não seria a saudade uma distância necessária, um (contra) tempo parteiro de sentido e espaço? distância não seria o mistério entre o que se vê e o que se sente? uma afirmação do desconhecido, da diferença? um limite espacial - pele de coisas? algo que o tempo ainda não alcançou? uma ambiência para o encontro? uma velocidade desconhecida pelo espaço? um gosto em só ser? uma vontade de si? uma voz em vocábulos desconhecidos? o nome do que me aperta em sítio largo?que modos de distâncias e quais as partilhas necessárias para O encontro? como encontrar distâncias sem exilar? um ritmo estranho? Km's de cuidado e delicadeza? não seria ela a comunicação de que algo é movente além e aquém de nós? uma paixão com sobrenome? como produzir distâncias que não quebrem os amores? o que fica do que é solo, do que encontra, do que aproxima? o que vive de uma distância?

Nem preguiça, ou desgosto, como previa o texto, é que tem palavras que são como mantras, o demasiado uso lhe rouba o sentido, então parece carência. A boa notícia é que na beira do fio podemos reiventá-la na sintaxe, delirá-la no corpo, enlouquecer o que foi. Saudades conta que a vida já não é a mesma de outrora, que o corpo não coube em outras casas, que o tempo é de outras coisas, um sinal que arrebenta (n)o peito e se finda nas costas, como asas que crescem.

Dia destes aprendi uma palavra nova. Querência no dicionário fala de sítios grandes; no peito de uma saudade presente na vida de quem vai. Tem palavras irmãs em sentido, vizinhas em sentimento. Tem dias que tudo chama saudades, puro por vir, corda resistente ao convívio, recusa a expulsão, quente no rosto, vento de dentro, febre no corpo, para além do nome, convite a reinvenção dos tempos em mim. Num verso Anita contou assim: "Nada disfarça o apuro do amor"(2). Dizem que é possível, mas não aprendi ainda a conceber o amor e a morte na mesma vida. Desatinada deste jeito só pode ser da mesma desordem familiar: força, amor e saudade; sofro deste desentendimento: músicas que ressucitam inquéritos e obtuários, cadáver-semente, carta de alforria! saudades denuncia pela lembrança, minha afirmação mais intratável, meu vício mais íntimo, um desejo clandestino, o movente nem tão secreto ou privado: um verso que agora só se chama amor!

* http://br.youtube.com/watch?v=doc1eqstMQQ

(1) Amparo oferendado por Barthes

(2) Denúncia realizada por Ana Cristina César






terça-feira, 18 de novembro de 2008

Pensamento que derrama

Começo a escrever uma carta e um penamento só me toma.
Todo mundo segue com suas demasias, "coisinhas" descabidas,
solitárias, desvairadas e bonitas ao seu modo.
Des-continuidade é onde derrapo,
mapa de algum acaso,
fingindo que encontro, inventando que vou e acreditando que volto.
Sofro de um mal que é sempre o mesmo de um outro jeito:
Excesso de umbigo próprio.
Destinatário das palavras:
tentativa de reinvenção do eu em mim na vida
é onde me sou devolvida em água, poeira e deriva.
É um pensamento que derrama,
na vontade da conjugação verbal na pessoa do Nós,
de um contínuo que caiba mais de um.

sábado, 15 de novembro de 2008

Sapato-parceria



A Foto da postagem anterior brincava no MSN, dizendo: "sapatos procuram poesia -
pode ser uma letra, meia palavra, afetos perdidos, um partido verso - quem se
habilita?". Poesia ela não conseguiu, mas o chamado resultou em parceria de
outros retratos de sapatos perdidos.
Créditos:
- Oferecimento Henrique Godoy
- Foto de Diana Basei, nas prelimirares do espetáculo "Como se Formam as Ilhas" (http://www.estadao.com.br/arteelazer/not_art273156,0.htm)

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Presente de desaniversário

"Um presente de desaniversário.
Vendo esse sapato, lembro do filme Mágico de Oz.
Sapatos Mágicos."



Créditos e agradecimentos:
- à criança que em Montevideo me vendeu seus sapatos escolares, fonte de inspiração e carinho
- à Dani Pinheiro, querida em desagrego pela foto-poesia, presente da e na vida

Medo: polifonias fronteriças

[Medo de aproximar e distanciar, de sair tão apressada para os encontros e não me levar; de ser tragada como se fosse inconsistente, de dar as mãos como se fosse amiga, de sair como se fosse livre; medo de me roubar, me barganhando a ausência do outro, por pura carência; das variações que sinto quando me percebo outra, várias mulheres fruto do encontro das vozes que tecem a história do feminino, um pouco de nós por dia; medo de anunciar pelo outro; de denunciar minhas fraudes; de delatar minhas farças; de me atropelar na gramática; de me ultrapassar numa pseudo maturidade e ter de me esperar chegar por anos; de que as respostas sejam mais rápidas que o caminho; da doçura dos encontros; de ser só; da potência tateada de leve num ENTRE; de só ser e esquecer de só estar; de me recolher como se fosse possível; de me esparramar como se fosse grossa, de sair e perceber que um desejo não se traí; de me encantar com os possíveis dos escombros; medo de desejar permanecer; medo de perecer ou de me equivocar na medida de mim; o de ficar somente pairando, ou de entrar e chafurdar no atoleiro, o de me misturar, o de limitar antes da borda; medo de tocar e quebrar e talvez o maior de todos: o de não sentir medo do medo, que se abreviou na coragem de poder anunciar tudo isso.]

Coragem não é ausência de temor, é autorizar que ambos habitem a mesma casa. Linha bamba do naufrágio das esperanças, lugar onde posso falir, onde deito minhas tristezas, teço alegrias, descanso os cabelos, miragino realidades e invento encontros. O medo é também habitado por (in) verdades que engravidam os tempos, escrevê-lo é acolher o que também me move.

Finalizo esta coragem com o sorriso-asa, daquele que acolhe o medo como pedaço primeiro de uma ousadia:

"Nós, humanos, somos estranhas criaturas: gostamos de ter medo. Escalamos montanhas, pendurados nos abismos; lançamo-nos no espaço vazio, confiados em frágeis asas; mergulhamos nas funduras do mar, cercados de perigos. Assim também as viagens - para serem mais do que deslocamentos banais no espaço têm de ser saltos no desconhecido, com todos os seus calafrios. A menina não podia voar porque não tinha asas no corpo. E não tinha asas na alma. As asas da alma se chamam coragem. Coragem não é a ausência do medo. É lançar-se, a despeito do medo (...) Não notou que algo estranho estava acontecendo: começaram a crescer asas nas suas costas. Não asas de pássaro. Ninguém é igual. Delicadas asas de borboletas (...)"*



[...] trecho de polifonias fronteiriças compartido com o coletivo Clínica: uma obra aberta

* Ousadias passarinheiras por Rubem Alves

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Femineras


Para entortar o bom-mocismo, recortes nem tão bagaceiras, delicados e/ou femininos assim:
As calcinhas velhas já me livraram de um monte de robada.

Fica tranquila nêga, uma ofença desse calibri, sai na urina.

Cada um no seu quadrado, mas com alguma coisa em comum.

Da ressaca moral: Bendito o fruto do desagrego!

Não trupica que a fila anda!

Em negócios de amor, nada de sócios!

Tem amores que é assim, não dura de uma depilação a próxima.

Do abandono da corda: onde tem promessa, há mentira!

Desagregada sim, desgrenhada jamais!

Nas derivas marítimas (ou etílicas?): soltas na vala!
Das precariedades transbordantes: estávamos caindo pelas tabelas! perdendo as estribeiras!
- Você vende Jóias?
- Não! faço o que posso, inclusive amizade na Rua Augusta.
- O extremo da generosidade?
- Não! é graça de viver mesmo.

Do presente de aniversário para ele: Um par de culhões!
É o que temos para hoje!


Feminice retratada por Sará Sauhova.
Vozes irreverentes ouvidas e/ou proferidas no caminho. Qualquer semelhança é mera (co) incidência.

domingo, 5 de outubro de 2008

Longes do Sul: Mar de Horizontes




Ninho: o possível do desejo de passarinhar.
Laranjal - Outubro de 2008 - por Dani Pinheiro
Das poesias nas ruas de porto
Porto Alegre - Outubro de 2008 *
Poente Laranja
Laranjal - Outubro de 2008 *
Summer south: Figueira - Gangorra das Idades
Laranjal Julho de 2008 Lentes de Danoca Pinheiro
Luz da Fronteira
Caminho de Montevideo (fronteira com Rio Grande do Sul) - Julho de 2008 - *


Primeiros Contatos
Montevideo - julho de 2008 *
Esquina para Poros
Laranjal - julho de 2008 - Por Dani Pinheiro


Bendito é o fruto do desagrego
Oferenda a Padroeira do Desagrego: Maria Helena
Túmulo das Carmelitas - Laranjal - julho de 2008 - Por Dani Pinheiro






Indo: Tudo é Movimento
Laranjal - julho de 2008 - Por Dani Pinheiro

Tudo é movimento

tudo gira
para fora.

O que parece

demora

é um acabado
fruto.
(Carlos Nejar)






*Minhas janelas

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Dos companheiros da espera

Criaturas-oníricas das águas de espera:
O Baile

O Duo

A Trupe


Das minhas janelas na sala de espera.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Pra acabar com o miserè


O vazio é um meio de transporte
Pra quem tem coração cheio
Cheio de vazios que transbordam
Seus sentidos pelo meio
Meio que circunda o infinito
Tão bonito de tão feio
Feio que ensina e que termina
Começando outro passeio
E lá do outro lado do céu
Alguém derrama num papel
Novos poemas de amor
Amor é o nome que se dá
Quando se percebe o olhar alheio
Alheio a tudo que não for
Aquilo que está dentro do teu seio
Porque seio é o alimento
E ao mesmo tempo a fonte para o desbloqueio
E desbloqueio é quando aquele tal vazio
Se transforma em amor que veio
Lá do outro lado do céu
Alguém derrama num papel
Novos poemas de amor
Do outro lado do céu
Alguém derrama num papel
Novos poemas de amor
O vazio é um meio de transporte
Pra quem tem coração cheio

Chico, meio cheio ou vazio não orna com os últimos tempos, de alegria ou miséria que transborde os poros... ops! os copos!

Cheio de Vazio - Paulinho Moska

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Do cinza dos dias ao pertencimento das cores




Da noite passada, o dia se encerrou com a denúncia da folia circense - o doce da pipoca grudado no cachecol, a gargalhada ainda passeando no diafragma e a sábia pergunta da sobrinha (bichinho-criança) a desmontar um sistema de educação arcaico: por que a professora apaga letra feia?

Passear com quem realmente entende da alegria faz do sorriso sotaque, da cama, sítio de saltos, do ar vagabundo, despretensioso cata-vento - desmancha saberes, dos dentes, sentido de vida, tabu vira a utopia do corpo e a pele, lugar gostoso de morar. É interessante como com ela fico despudorada e confiante ao desaprender os rumos, os dias.

Ainda com dúvidas no tom conversamos sobre a dificuldade dos adultos em ralar os joelhos e a urgência de anestesiar a dor, sobre a inabilidade em ver os próprios garranchos, errãnças nas veredas. No circo, picadeiro dos por vires da infância, ficamos com as palmas coçando de muito aplaudir as cores, movimentos e palavras desconexas, música de sopro, chorei, porque gente que voa, tamburila meu peito, se isso acompanha dança e suspensão, meu corpo se oferece pleno para a passagem do onírico e meus olhos viram atrvessadeira líquida para a beleza de flanar. Ao final do encontro combinamos então que ela desautorizaria que as feias letras fossem apagadas e que em breve retomaríamos a prosa: desafio, ofício das nossas distâncias.

Desejei demais iniciar a semana na leveza e intensidade, tons do último encontro, contudo os olhos amanheceram com o cinza do dia, na concretude das vigas (ou vidas?) prediais, densidade do ausente das cores, corpo árido, umidecido na gelidez da fina garoa estilhaçando os poros, sorrisos amarelos pendurados na vareta das sombrinhas, urgência de não encontrar a vida para não desviar da pressa no caminho para casa.

Dias cinzas são zangas difíceis, desejosos de inexistência, podia ser roxo, graná, magenta, até amarelo. Sabe o que é? nunca esqueci das aulas de educação artística, suponho que distorci os ensinamentos, como quase tudo que chega no meu corpo; sempre imaginei o cinza como uma QUASE cor. Não é branco, junção de todas, ou preto, ausência delas, nem mesmo um tom; uma energia pretendente a qualquer coisa morna, mais ou menos, nem fácil ou difícil, quase transparente, palatável, que pára na garganta, sem força de se fazer engolir, ou para devolver-se ao mundo.

O equilíbrio dos tons me deixa com o apetite para dentro, sem desejo de cambalhota, distante da rua, varanda vazia em plena cidade; pessoas dispersas, fato sem acontecimento, falência dos sentidos, esbarrão sem encontro, ilhas separadas, existência sem suspiro, riso ausente - fruto da economia na expressão, mandíbula travada para o inusitado, cegueira sem olhos, espartilho a sufocar as costelas, flores estranguladas em gola alta e os encontros não acontecem.

Em dias de Terra da Garoa minhas pernas se arrastam num caminhar baixo, as durezas do chão me desensinam a dançar, desfaço as constelações que não aprendi, o silêncio chega e é a última palavra. É dia de graves dores, faço o dossiê dos meus defeitos, dos amores falidos, teço o inventário das minhas culpas, carimbo o obituário dos possíveis, velo a morte do meu pedaço cintilante, tamanho é o desagrego, que pouco importa aquecer a cabeça com o vermelho do chapéu - cinza é dia indiferente ao que vibra na vida.

Escrevo cartas para estranhos, visito passageiros, recuso ligações, não consigo começar um encontro, terminar uma música, existir é fato que me dói, meu olhar é tão antigo quanto minha juventude cansada, o corpo vira fiandeira do tempo adoecido na inércia em mim - tempos de ausência e distâncias, pedaços de angústia convulsionam por viver inundada na solidão das horas, tristeza, por DESPERTENCER. Vontade do sol atravessando os poros, do suor varando a pele, do quente do encaixe de dois, da água nadando no íntimo, da confiança na parceria, do mar ondulando o corpo, de companhia navegado a vida.

Faz pouco, para a surpresa das vísceras, vi no telejornal um nascimento. Uma criança de oito realiza o parto do seu irmão, ele conta: veio primeiro a cabeça que puxei com a mão, depois o corpo, minha mãe cortou o cordão e ele nasceu! Falava de fazer nascer, com a naturalidade de quem conta do carrinho de rolemã caindo ladeira abaixo.

Da apatia ao incidente de abismar-me, este menino pirilampo de viver, auxiliar na parição do seu irmão me arrastou, me arrebatou de vida. Soluço de sal, olho embargado, rosto com vincos lavados, a alegria de nascer foi que me tomou na neblina da noite. Das descobertas com o pequeno parteiro:
As cores me doem pela morte presente a cada instante, na traseira de um outro nascimento. Já o cinza resguarda o que não é anunciado; este tom é o guardião dos segredos privados, dos partos em maternidades, primo dos tons pastéis que ocultam as misérias e oprimem a potência da vida, me remete ao que iguala os homens em sua fraqueza, os fraterniza em suas desgraças e os libertam em seus ideais estáticos e homogêneos, de esperança, permanência, cura e paz; meio tom é neutralidade inexistente, é Zem barato, que retira a energia de uma cor que sempre há ao nascer, que diz que passa, que deseja equilíbrio, que separa, perfilando os tons das febres, que afirma a estabilziação dos timbres, que borda com harmonia os des(a)tinos, já que este é poluição visual, que desbota palavras, afetos e caligrafias tortas e feias ao seu modo.
Talvez o mais difícil dos dias griz seja desvelar, delatar que há cinzas em mim, em tom e morte, que eu também desejo abortar as feias coisas, desnascer as tritezas, precocemente cicatrizar as fundas feridas, distanciar as difíceis lembranças, despentecer aos amores abandonados e jamais esquecidos. O cinza conta das invisibidades que desejo ocultar e dias assim as escancaram janela afora, diante dos meus olhos, tropeços, gritos, desarranjos, meus borrões, correções, grifos, que nego, mas que me recuso apagar, porque também sou eu.

Isso tudo é máquina de fazer fantasmas, fantasias de (des)pertencer, de distanciar, de não querer partir, de não querer ser só, de não tombar, de não sustentar, agora, só neste instante não tive dúvida: não há outro jeito para a vida, senão ACONTECER, em todos os tons! Nascer é coisa bonita que arrebenta pra inaugurar, que arrebata a existência em seus inéditos, tem de ser gritada, molhada e aplaudida em todas as escalas e notas; existir em potência nascente é mais do que promessa, é o milagre humano, esta é a beleza presente nas cores, conta das nuances possíveis a cada instante. A distância que amedronta em dias assim está na neblina do chuvisco, é só o mistério entre o que se vê e o que se sente, uma afirmação do estranho em mim, outro, diferença que se processa a cada instante em nós. Cinza é só um rabisco - mágoa do céu em mim. Mesmo húmida eu PERTENÇO (in)definidamente, inclusive ao que nego, dentro é só um vinco do fora - é impossível não passar pelo que me avessa. Depois de grafar a tristeza no branco o cinza rabiscou todas as cores. Agora SIM! diz a previsão do texto.


Pertencimento imagético criado por Saudek


segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Des-territórios passados


sábado, 6 de setembro de 2008

Do lembrete na algibeira




A felicidade não está no que acontece mas no que acontece em nós desse acontecer. A felicidade tem que ver com o que nos falta ou não na vida que nos calhou. Devo dizer que não me falta nada, quase nada.




Verdade provisória emprestada por Virgílio Ferreira - Em nome da terra
Arrebatamento fotográfico promovido por Saudek

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Desamar ao avesso

Das riquezas avessas do amor e da língua portuguesa, dizem que é Clarice:

Não te amo mais.
Estarei mentindo se disser que
Ainda te quero como sempre quis.
Tenho certeza de que
Nada foi em vão.
Sei dentro de mim que
Você não significa nada.
Não poderia dizer nunca que
Alimento um grande amor.
Sinto cada vez mais que
Já te esqueci!
E jamais usarei a frase
EU TE AMO!
Sinto, mas tenho que dizer a verdade:
É tarde demais...



Agora leia de baixo para cima.

Versos para não entender

Verdade e mentira é previlégio de juízo, palavras a deriva em terra de ninguém, sem olhos, carne e corpos que afirmem a segurança da jogatina semântica.
Quantos encontros são necessários para uma despedida? Com quantas distâncias se faz um bom encontro?
Bonitas as palavras do verso, da resposta, se não fosse a ausência de boca, argumento-coragem de me manter aqui e te deixar aí.
Se na banalidade de parecer inteligente, de escrever no anonimato "sua" fosse sujeito definido e endereçado, não acharia que é burburinho de personagens, mas como não sou destinatária, faço de conta que estou, que vou e que invento que acho, enquanto a vida bate e você não vem. Tudo ameno, menos a umidade do ar, tudo de bolinnhas azuis da mesma cor e blá-blá-blá. Sensível, não?
Versos para não entender, desconvite a vida moderna. Escárnio fingido de indiferença é assim.